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Cultura Popular

Jacarepaguá de um ponto de vista popular

História e luta das camadas populares esquecidas no relato oficial do bairro carioca

15 de outubro de 2025

Quem deseja fazer uma pesquisa, mesmo que rápida, sobre a história da Baixada de Jacarepaguá e seus vários bairros, certamente se deparará com referências sobre vários marcos históricos (aqueduto da Colônia Juliano Moreira, as Igreja Nossa Senhora da Penna e Nossa Senhora de Loreto, a  Praça Professora Camisão, a antiga sede do “Engenho D’Água) e naturais (Pedra da Panela, Lagoa da Tijuca, praias da Barra e do Recreio), personalidades históricas (Barão da Taquara, Cândido Benício, Geremário Dantas)

Mesmo se tratando de um levantamento superficial, as palavras “história” e “Jacarepaguá” ao serem digitadas no google oferecem uma enxurrada de textos que girarão em torno de uma mesma origem, a tal da doação de sesmaria que Salvador Correia de Sá deu em 1594 aos seus dois filhos, Martim Correia de Sá e Gonçalo Correia de Sá. O filho de Martim, Salvador Correia de Sá e Benevides, chegaria ao governo da capitania do Rio de Janeiro por diversas vezes, encabeçando uma rede comercial lucrativa que tinha ramificações em Angola. Tanto poder e influência reverteram em benefícios às propriedades que Salvador e parentela possuíam na região de Jacarepaguá.

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As venturas e desventuras da poderosa família Correia de Sá estavam intimamente ligadas ao chamado “desenvolvimento” de Jacarepaguá teria como marco. Era como se fossem a mesma coisa. Uma levava a outra. Pelo menos essa é visão consagrada pelos registros históricos que foram se acumulando por décadas, produzidos por historiadores e memorialistas, alguns deles nascidos e criados na Baixada de Jacarepaguá.

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Outra família de renome seria a Teles Barreto de Meneses, chegando a ser no final do século XVIII a maior proprietária de terras na região. O domínio dessa família e dos Correia e Sá sofreria alguns impactos com a chegada do século XIX, quando as grandes propriedades que faziam parte da chamada “planície dos onze engenhos” começaram a ser retalhados para a criação de grandes e médias fazendas. Principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Se os engenhos cuidavam da produção de açúcar, agora as fazendas tratariam de produzir café. Jacarepaguá mudava levemente de feição no período Imperial de nossa história. Mas tanto este como o período Colonial seguiria baseado na exploração forçada do trabalho da população de origem africana. E antes, até pelo menos o século XVII, tal exploração também vitimou a população originária da região, conforme brilhante estudo de Sílvia Peixoto (sua dissertação de mestrado: Jacarepaguá, a “Planície dos Muitos Engenhos”: uma arqueologia do sertão carioca, Rio de Janeiro, século XVII ao XIX).

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Outra referência civilizatória do processo histórico de Jacarepaguá (como do Brasil como um todo) é a Igreja Católica. A expansão desta sobre o território serve ao mesmo tempo de causa e sintoma da consolidação do movimento colonizador sobre a região.

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Não à toa o ato de fundação de um território é associado à data de criação da paróquia (equivalente a bairro ou distrito), que geralmente ganha o nome de um santo católico; e cuja sede também é uma capela ou igreja – geralmente nas terras doadas por um grande e rico proprietário. Daí que os templos católicos ocupem espaço privilegiado na memória oficial das cidades e bairros.

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E em todas essas versões da história de Jacarepaguá o elemento popular figura ausente na esmagadora maioria das vezes. Como se sua agência fosse insignificante, ou se a menção a ela fosse algo a se evitar, como se não merecesse ser mencionada, por não ter qualquer relevância digna de nota.

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E quando é mencionado apenas na condição de sujeito sem nenhuma capacidade de agência ou autonomia, como se a ele o único lugar possível de existência fosse na condição de objeto de violência e de dominação.

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Óbvio é que sob uma perspectiva como essa nenhuma importância seria conferida às lutas e às experiências de gente simples e humilde, que com suas dores, alegrias, ambições e fantasias contribuíram para a formação histórica e social do território.


Não! Para quem considera que a história que presta foi feita por gente poderosa, que construiu fortuna oprimindo e explorando até o talo inúmeros trabalhadoras e trabalhadoras, tratando a todos e todas como escravos – e ainda celebrando isso como aspecto positivo, como quando escreviam coisas do tipo “Jacarepaguá chegou a ter um plantel(sic) formidável de escravos(sic)” – as histórias dos “debaixo” é irrelevante.

Mas essas outras histórias não só aconteceram como devem ser rememoradas. Relembrá-las é uma forma de assegurar o direito à memória das classes populares de um determinado território.

Rememorar o passado de um ponto de vista dessas classes populares representa também afirmar politicamente uma perspectiva da história, a da “história vista de baixo” – de acordo com a magistral formulação de Edward Thompson; mostrando que a classe trabalhadora não foi mera espectadora passiva da realidade que ia se desenrolando, quando se trata exatamente do contrário – as pessoas humildes e desprovidas de poder também são capazes de fazer história, segundo seus valores e concepções.

E quando falamos de Jacarepaguá (o que vale para todo o nosso país, e por que não afirmar, para o mundo), não é nada difícil nos depararmos com uma infinidade de histórias memoráveis, porque contra-hegemônicas, que não seguiram o roteiro daqueles que detinham o poder.

Como as histórias das tribos originárias que mesmo sob o processo de extermínio e expropriação seguiram combatendo, e mesmo sob trabalho forçado e no contexto da escravidão seguiram construindo brechas para a afirmação de sua cultura e religiosidade; o exemplo de Firmino, que lutou pela liberdade em meados do século XIX, e foi morto por isso a mando daquele que se considerava “seu Senhor”; como os escravizados que se rebelaram em 1885 no antigo Engenho Novo da Curicica.

E temos ainda o exemplo do povo que lutou pela desapropriação de Gardênia Azul nos primeiros anos da década de 1960; do povo de Rio das Pedras que, inspirado no exemplo anterior, resistiu bravamente aos despejos que uma companhia tentou realizar em 1966, em plena Ditadura Militar; a luta por terra por parte de posseiros e arrendatários contra as companhias imobiliárias e particulares que se diziam donos das terras, mas que não passavam de grileiros, doidos que estavam para abocanhar partes da Curicica, Vargens, Recreio, Barra da Tijuca e Jacarepaguá.

Até Liga Camponesa surgiu ali em Jacarepaguá.

Há muito o que se levantar sobre esse território que é terra de muita luta, trabalho e devoção. De muitos cultos, terreiros, batuques. De diversas matrizes. 

Tantas histórias que esse território acolheu e segue acolhendo. Não tem como reduzir tudo ali ao umbigo de duas ou três famílias.

A vida que pulsou e ainda pulsa na Jacarepaguá dos debaixo presta.

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