
A promessa era futurista. O resultado, paradoxalmente, conservador. Antes mesmo de escolher a fantasia que marcará sua estreia no Carnaval de São Paulo, Gabi Fatalle, musa da Colorado do Brás, decidiu romper com o roteiro clássico do samba: dispensou o estilista e apostou tudo na inteligência artificial para desenhar seu figurino. O experimento, que começou como vanguarda criativa, terminou como uma aula prática sobre os limites morais embutidos nos algoritmos.
Usando ferramentas como o ChatGPT e o NanoBanana, Gabi elaborou um briefing detalhado, quase cirúrgico. Queria uma nanofantasia — micro, nano, extremamente ousada, confortável e desenhada para o seu corpo. O tipo de peça que não pede permissão ao olhar alheio. O que recebeu, no entanto, foi outra coisa.
Perspectivas Editoriais
Quando o algoritmo veste pudor
“Os primeiros modelos ficaram bons, me animei”, relata. O entusiasmo durou pouco. À medida que refinava o pedido, a IA recuava. Vestidos longos, referências ao frevo, propostas comportadas. Nada que dialogasse com a estética do Carnaval contemporâneo de musas e nanofantasias.
“A IA não entregou nada sensual, nada muito pelada”, resume, rindo. O riso, aqui, é irônico. O episódio expõe uma verdade incômoda: mesmo vendida como neutra, a inteligência artificial carrega filtros morais e limitações culturais impostas por quem a programa.
O retorno ao humano — e ao risco
A frustração foi decisiva. Gabi voltou ao método tradicional: contratou um estilista, explicou o conceito sem filtros e chegou ao modelo ideal. “Ele entregou como eu queria, bem micro mesmo.” O desenho aprovado já está em reprodução no ateliê.
Foi também nesse momento que ela abandonou o tapa-sexo clássico e abraçou de vez a nanofantasia. A peça, feita em tecido que imita a pele, foi pensada para garantir conforto, liberdade de movimento e impacto visual máximo — três critérios que a IA, curiosamente, não conseguiu conciliar.
Investimento, corpo e autonomia
O custo acompanha a ambição. Gabi ainda não fechou a conta final, mas admite que o investimento já ultrapassa R$ 60 mil. Longe de ser um exagero isolado, o valor reflete a profissionalização do Carnaval das musas, onde figurino é estratégia de posicionamento e identidade pública.
Além da avenida, Gabi Fatalle é criadora de conteúdo adulto e já foi capa de revistas masculinas — experiências que informam sua relação com o próprio corpo como ferramenta de trabalho, expressão e autonomia. Não há ingenuidade na escolha estética; há método.
A IA que não samba
O caso de Gabi Fatalle escancara um ponto central do debate contemporâneo: inteligência artificial não é sinônimo de liberdade criativa. Ao contrário, tende a reproduzir padrões médios, moralizados e globalizados, pouco sensíveis a contextos culturais específicos como o Carnaval brasileiro.
A avenida exige excesso, risco e transgressão controlada. O algoritmo, por enquanto, prefere o seguro. Entre a inovação tecnológica e a ousadia estética, Gabi escolheu o que funciona sob os refletores.
Na próxima semana, ela desembarca de Londres rumo ao Brasil e entra na reta final de ensaios técnicos e aulas intensivas de samba. A fantasia já está definida. A lição também.

Para entender onde a IA falha
1. Por que a IA não conseguiu criar a fantasia desejada?
Porque opera com filtros morais e padrões genéricos que limitam o sensual explícito.
2. A inteligência artificial substitui estilistas no Carnaval?
Ainda não. Falta sensibilidade cultural e leitura do corpo em movimento.
3. O que é uma nanofantasia?
Um figurino ultraminimalista, focado em impacto visual, conforto e conceito.
4. A experiência com IA foi inútil?
Não. Serviu para revelar seus limites e orientar uma decisão mais precisa.





