
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) determinou nesta quinta-feira, 30 de janeiro de 2026, no Rio de Janeiro, a interdição total da refinaria Refit, antiga Manguinhos, após inspeção técnica constatar risco concreto de acidentes e incêndios, decisão motivada pela deterioração das condições de segurança e agravada por investigações criminais em curso contra a empresa.
Uma interdição que já vinha sendo anunciada
A decisão não surge do nada. Desde o ano passado, a refinaria operava sob restrições parciais, com a torre de refino proibida de funcionar. O que se manteve ativo — tanques de formulação de combustíveis — tornou-se, segundo a ANP, um elo frágil em um sistema comprometido como um todo. A interdição total é o reconhecimento tardio de que não existe operação segura quando a estrutura global falha.
Perspectivas Editoriais
Risco industrial em área urbana sensível
Localizada em uma região densamente povoada do Rio, a antiga Manguinhos sempre representou um desafio urbano e ambiental. O risco de incêndio ou explosão não é um problema abstrato de engenharia, mas uma ameaça direta à vida e à infraestrutura ao redor. Quando a ANP aponta “perigo à segurança operacional”, traduz-se, na prática, em potencial de dano coletivo em escala metropolitana.
Fiscalização e limites da prevenção
A atuação da agência reguladora expõe uma contradição estrutural do Estado brasileiro: a fiscalização frequentemente chega quando o problema já ultrapassou o limite do aceitável. A interdição, embora necessária, evidencia que a prevenção foi insuficiente. Em setores de alto risco, como o refino de combustíveis, a linha entre operação tolerada e desastre anunciado é perigosamente tênue.
O peso do passado criminal
A Refit não carrega apenas passivos técnicos. A refinaria é alvo da operação Poço de Lobato, que investiga um esquema bilionário de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, com prejuízo estimado em R$ 26 bilhões aos cofres públicos. Esse histórico contamina qualquer análise estritamente técnica: empresas sob investigação criminal tendem a reduzir investimentos, inclusive em segurança, para sobreviver financeiramente.
Energia, crime e assimetria concorrencial
O caso expõe um problema sistêmico do mercado de combustíveis no Brasil. Operações que burlam impostos e regras ambientais criam concorrência desleal, pressionando empresas regulares e distorcendo preços. A interdição da Refit não afeta apenas sua produção, mas reequilibra, ainda que parcialmente, um mercado historicamente marcado por informalidade sofisticada e captura regulatória.
Impacto econômico localizado, efeito simbólico amplo
No curto prazo, a paralisação total da refinaria tem impacto limitado sobre o abastecimento nacional, dada sua relevância reduzida no parque de refino brasileiro. O efeito simbólico, porém, é maior: sinaliza que a tolerância institucional com operações de risco e histórico criminoso encontra um limite. Resta saber se esse limite será mantido ou se se dissolverá na próxima crise.
O que a interdição revela sobre o Estado
Mais do que uma medida administrativa, a decisão da ANP revela um Estado que reage sob pressão, não por antecipação. A segurança industrial, quando tratada como variável secundária, transforma-se em problema político apenas quando o risco se torna incontornável. A interdição da Refit é correta, mas também é um diagnóstico tardio de um modelo de fiscalização que ainda opera no limite.





