O domingo de Carnaval no Rio de Janeiro não foi apenas uma sucessão de desfiles, mas um manifesto político e cultural sobre a ocupação do espaço público. No epicentro dessa narrativa, o Cordão do Boitatá transformou a Praça XV em um salão histórico, reunindo 50 mil foliões para celebrar três décadas de um movimento que é, em essência, o pilar da revitalização do Carnaval de rua carioca.
Sem marcas ou patrocínios, o Boitatá defende a autonomia da festa como uma “disputa pelo direito à cidade”, como definiu Adriana Schneider, fundadora do bloco. O baile, patrimônio imaterial do estado, fundiu a sofisticação da sua orquestra de 15 músicos com a participação de nomes como Teresa Cristina e Marquinhos de Oswaldo Cruz, reafirmando o papel do samba e das tradições afro-brasileiras como o porto seguro da nossa identidade.
A homenagem de Teresa Cristina a Preta Gil, ao cantar “Sinais de Fogo”, conectou o Boitatá ao circuito contemporâneo da Rua Primeiro de Março, simbolizando uma ponte entre a resistência das raízes e o pop nacional. Enquanto o Boitatá ocupava o Centro, o Bangalafumenga promovia seu retorno triunfal ao Aterro do Flamengo após um ano de hiato. Reunindo também uma multidão de 50 mil pessoas, o “Banga” mostrou que sua batucada permanece como um elo afetivo multigeracional. Para Rodrigo Maranhão, o retorno foi uma reconexão com o espírito coletivo, provando que a pausa estratégica serviu para fortalecer a identidade de um dos blocos mais queridos da cidade.
Análise & Contexto
Do Asfalto à Periferia: A Latina Vila Kosmos
A descentralização da folia ganhou cores potentes na Zona Norte com a Charanga Talismã. Ocupando a Avenida Meriti, em Vila Kosmos, o bloco levou pernaltas e um naipe de metais robusto para as ruas, integrando-se organicamente à comunidade local. Com o tema “Me Encanta América Latina”, a Charanga não apenas celebrou a união continental, mas marcou posição política ao incluir sucessos contemporâneos como os de Bad Bunny em seu repertório. Essa integração com o território — onde moradores de décadas, como Dona Ivete de 83 anos, assistem ao cortejo de seus portões — exemplifica o Carnaval que o Diário Carioca valoriza: respeitoso, comunitário e profundamente conectado com a história dos bairros.
[Tabela: Panorama dos Blocos deste Domingo]
| Bloco | Localização | Público Est. | Destaque / Tema |
| Cordão do Boitatá | Praça XV (Centro) | 50.000 | 30 anos de resistência e autonomia. |
| Bangalafumenga | Aterro (Flamengo) | 50.000 | Retorno às ruas e força da percussão. |
| Charanga Talismã | Vila Kosmos (ZN) | Comunidade | “Me Encanta América Latina” e pernaltas. |
| Simpatia É Quase Amor | Ipanema (ZS) | Milhares | 40 anos e homenagem aos povos originários. |
Zona Sul: Tradição e Homenagens
Na orla e nos bairros tradicionais da Zona Sul, a celebração manteve o tom de reverência. O Simpatia É Quase Amor comemorou suas quatro décadas de Ipanema com um desfile dedicado aos povos originários e ao jornalista Marceu Vieira, mantendo viva a chama da sátira e do engajamento social. No Leblon e em Laranjeiras, os blocos Areia e Laranjada garantiram a fluidez de um Carnaval leve e participativo, reforçando que a cidade, em 2026, amadureceu para comportar desde os grandes palcos no Aterro até os cortejos bem-humorados de bairro.
Takeaways:
- Cordão do Boitatá celebra 30 anos como símbolo de Carnaval sem patrocínios privados.
- Bangalafumenga retorna ao Aterro reafirmando sua batucada como ícone carioca.
- Charanga Talismã promove integração latino-americana e descentralização na Vila Kosmos.
- Simpatia É Quase Amor festeja 40 anos com pauta voltada aos povos originários.
Fatos-chave:
- Data: Domingo, 15 de fevereiro de 2026.
- Evento Principal: Baile do Boitatá na Praça XV.
- Público no Centro e Aterro: 100 mil foliões somados entre Boitatá e Bangalafumenga.
- Localidade em destaque: Vila Kosmos, Zona Norte.
- Circuitos Citados: Circuito Preta Gil e Eixo Centro-Zona Sul.





