Déspota

Condenado por abuso sexual, Trump ressuscita a Doutrina Monroe e proclama hegemonia absoluta dos EUA no Ocidente

Após o ataque à Venezuela, presidente afirma que Washington voltará a controlar o destino político do hemisfério e anuncia ocupação prolongada do país.
Foto de palinchak
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Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Donald Trump decidiu abandonar qualquer disfarce diplomático. Em pronunciamento neste sábado, o presidente dos Estados Unidos afirmou que o ataque à Venezuela marca o retorno explícito da Doutrina Monroe como eixo central da política externa de Washington e declarou que a “dominância americana no hemisfério ocidental nunca mais será questionada”.

A fala ocorreu poucas horas após a ofensiva militar em Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Não houve apelo à legalidade internacional nem menção a organismos multilaterais. Trump falou como quem anuncia a retomada de um império que, segundo ele, apenas esteve adormecido.

“Quando a hegemonia precisa ser reafirmada à força, já não é liderança — é medo travestido de destino manifesto.”

O poder como espetáculo

Trump descreveu a operação como uma exibição inédita da força militar norte-americana, comparando-a às grandes guerras do século XX. Relatou a captura de Maduro durante a madrugada, exaltou a ausência de baixas entre soldados dos EUA e apresentou a ação como prova de que Washington voltou a impor sua vontade sem constrangimentos.

O presidente confirmou que Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram levados aos Estados Unidos e responderão a acusações de narcoterrorismo. As denúncias, rejeitadas pelo governo venezuelano, serviram como base narrativa para justificar a intervenção — ainda que o próprio Trump tenha deixado claro que o objetivo vai muito além do campo judicial.

Administrar, ocupar, explorar

Trump anunciou que os Estados Unidos permanecerão na Venezuela até que considerem a situação “adequadamente resolvida” e afirmou que Washington irá “administrar o país” temporariamente. A palavra transição apareceu sem prazo, sem garantias e sem participação internacional.

O interesse econômico foi declarado de forma direta. Segundo Trump, grandes petrolíferas norte-americanas assumirão a reconstrução da infraestrutura energética venezuelana e iniciarão a exploração das maiores reservas de petróleo do mundo. O discurso da prosperidade prometida ao povo venezuelano ecoa fórmulas antigas, repetidas sempre que tanques cruzam fronteiras em nome do progresso.

De 1823 a 2026: o retorno do velho mundo

A Doutrina Monroe, proclamada em 1823 com o lema “a América para os americanos”, sempre significou, na prática, a América Latina sob tutela de Washington. Do século XIX às intervenções do século XX, o princípio justificou golpes, ocupações e governos fantoches.

Ao declarar que a doutrina foi “trazida de volta” e integrada oficialmente à estratégia de segurança dos EUA, Trump não apenas cita a história: ele a reencena. Como nos romances de Joseph Conrad sobre impérios que se acreditam civilizadores, o vocabulário da ordem e da justiça serve para encobrir a lógica nua da dominação.

A ameaça como método

Trump encerrou o pronunciamento com um aviso direto às autoridades venezuelanas: o destino de Maduro pode se repetir com qualquer um que desafie a nova ordem imposta por Washington. A mensagem é clara — não apenas para Caracas, mas para todo o continente.

Ao proclamar que “a América é agora uma nação mais segura”, o presidente dos Estados Unidos redefine segurança como submissão regional. Não se trata de estabilidade, mas de hierarquia. E quando um líder mundial anuncia que sua hegemonia “nunca mais será questionada”, a história ensina que o questionamento costuma apenas começar.

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