Ainda era noite quando Caracas acordou com o som que a América Latina conhece bem: o ronco grave de aeronaves militares rasgando o céu e a história.
Em poucas horas, o presidente Nicolás Maduro deixou de ser chefe de Estado para se tornar prisioneiro de uma potência estrangeira, segundo anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Não foi uma transição política. Foi uma extração.
A madrugada em que o poder mudou de endereço
Explosões sucessivas ecoaram por bairros centrais e pela zona sul da capital, especialmente nas proximidades da base aérea de La Carlota. Relatos de moradores falam em correria, tremores e quedas de energia. Vídeos que circularam nas redes mostram colunas de fumaça e aviões voando em baixa altitude — imagens que remetem mais a manuais de intervenção do que a comunicados diplomáticos.
Washington afirma que a operação foi “bem-sucedida” e conduzida por forças de segurança americanas. O destino de Maduro não foi revelado. Caracas, atônita, exige uma prova de vida.
“Quando a soberania vira bagagem de mão, a democracia passa a viajar sem passaporte.”
De Monroe à Guerra Fria: o roteiro conhecido
A cena não é nova. Desde o século XIX, a Doutrina Monroe ensinou que a América Latina seria quintal estratégico de Washington. No século XX, o roteiro se repetiu de Guatemala a Chile, de Panamá a Granada: crises internas, retórica de combate ao crime ou ao comunismo, e a intervenção como desfecho. A captura de Maduro soa como atualização desse velho libreto, agora embalado pelo discurso do antinarcotráfico e do terrorismo.
O próprio governo americano vinha, desde agosto, apertando o cerco: recompensa milionária pela prisão do líder venezuelano, classificação do Cartel de los Soles como organização terrorista e reforço naval no Caribe. As conversas telefônicas entre Trump e Maduro, em novembro, terminaram como costumam terminar diálogos entre desiguais: sem acordo e com ultimato implícito.
Petróleo, poder e a disputa pelo subsolo
Caracas acusa Washington de mirar o que sempre esteve no centro da cobiça internacional: petróleo e minerais. Não é uma acusação isolada. As reservas venezuelanas seguem entre as maiores do mundo, e a apreensão recente de navios petroleiros elevou a temperatura do conflito. A geopolítica, afinal, raramente se move por princípios abstratos quando há barris, dutos e mercados em jogo.
O dia seguinte que ninguém controla
A vice-presidente Delcy Rodríguez afirma não saber onde está Maduro e convoca solidariedade regional. O governo declara estado de emergência e fala em resistência. Do outro lado, Trump celebra a operação como vitória. Entre um tweet e outro, a América Latina acorda diante de um dilema antigo: aceitar o fato consumado ou transformar a captura de um presidente em linha vermelha continental.
A história ensina que intervenções raramente terminam quando o alvo é retirado de cena. Elas apenas abrem capítulos mais longos — e quase sempre mais caros em vidas, estabilidade e futuro.

