O discurso foi cirúrgico, quase clínico, mas o impacto soou como trovão. Em sessão tensa do Conselho de Segurança, os Estados Unidos apresentaram sua versão para a ofensiva na Venezuela: não se trata de ocupação, tampouco de guerra, mas de uma “operação policial” destinada a neutralizar ameaças. A definição, lançada pelo embaixador Mike Waltz, não convenceu todos — e talvez nem devesse.
Há palavras que, quando escolhidas, carregam mais ideologia do que precisão. Chamar tanques de algemas e bombardeios de mandados é uma dessas escolhas.
Do ponto de vista histórico, a cena ecoa debates antigos. Desde a Paz de Vestfália, em 1648, a soberania é o pilar que organiza o sistema internacional. Sempre que uma potência redefine esse conceito, o mundo entra em zona cinzenta. Foi assim no colonialismo do século XIX, reapresentado como “missão civilizatória”, e é assim agora, quando intervenções ganham rótulos jurídicos para suavizar o estrondo das armas.
“Quando a força precisa mudar de nome para se justificar, é porque a verdade já está sob ocupação.”
A narrativa dos porcos de Washington
No centro da argumentação americana está a acusação direta a Nicolás Maduro, descrito como chefe do chamado Cartel de los Soles, recentemente enquadrado pelos EUA como organização terrorista internacional. Segundo Waltz, o governo venezuelano teria se transformado em uma engrenagem do narcotráfico global, em associação com atores como o Hezbollah e autoridades iranianas.
A retórica é conhecida: combater o mal absoluto para proteger o bem comum. George Orwell alertava que a linguagem política existe para “fazer com que mentiras soem como verdades”. A comparação não é literária por acaso.
Recursos, poder e petróleo
Outro ponto sensível do discurso foi o controle das reservas energéticas venezuelanas. Para os EUA, o petróleo estaria capturado por uma elite que não reverte riqueza em bem-estar social. O argumento toca em feridas reais da população, mas também dialoga com um histórico de intervenções onde recursos naturais nunca foram detalhe secundário.
O freio da ONU
A reação das Nações Unidas veio em tom de preocupação institucional. Em mensagem lida pela subsecretária Rosemary DiCarlo, António Guterres alertou para o risco de instabilidade regional e, sobretudo, para o precedente que se estabelece quando um Estado decide agir unilateralmente sob novas interpretações da lei internacional.
Não é apenas a Venezuela que está em julgamento, mas a própria arquitetura do sistema global.
América Latina no tabuleiro
Colômbia pediu a reunião, Brasil observa com cautela e reafirma o discurso do diálogo. A região, historicamente campo de disputas entre impérios e projetos nacionais, assiste mais uma vez à redefinição de suas fronteiras simbólicas. A pergunta que fica não é se haverá consequências, mas para quem elas pesarão primeiro.

