A década de 1950, logo em seu início, testemunharia também o surgimento das Associações de Lavradores, que seriam até a década de 60, a principal forma associativa dos lavradores do Sertão Carioca. Depois do desaparecimento das Ligas em 1947, a primeira organização desse tipo criada foi a Associação de Lavradores da Fazenda Coqueiros (ALFC), ainda na década de 1940 – mais precisamente em 1º de maio de 1948. Seu principal dirigente era Teobaldo José Ribeiro, “nascido e criado na Fazenda” (Voz Operária, 13/06/1953, p. 9). Outras lideranças eram Heitor da Rocha Faria (advogado da organização) e Lyndolpho Silva (futuro fundador da ULTAB), todos militantes do PCB. Apesar dessa ligação com os comunistas, a ALFC desenvolveria uma política de atuação que atrairia o apoio de grupos de outros grupos (PSB, PTB, os jornais O Popular, O Radical, Luta Democrática, Última Hora etc.). A ALFC seria a principal responsável pela realização do I Congresso dos Lavradores do Distrito Federal, que, segundo a imprensa comunista, teria despertado o “maior interesse” entre os lavradores, além de deputados, vereadores e outras personalidades. Certamente, pois a polícia política acompanhava com igual interesse todas as etapas deste Congresso, já “que os comunistas pretendem… agitar os debates com a habitual e desenfreada demagogia”. Na verdade, segundo o Imprensa Popular, o objetivo de “dezenas de camponeses do Sertão Carioca, escolhidos por seus companheiros em assembléias e reuniões” era simplesmente, “na base do debate”, discutir “as questões que mais avulta[va]m aos camponeses”, como concessão de crédito aos pequenos lavradores e a posse da terra (Imprensa Popular, 01/07/53, p. 3.). Os participantes ao final do evento, com o intuito de estabelecer uma frente comum de luta entre os lavradores cariocas, fundariam a Associação dos Lavradores do Sertão Carioca.
O reconhecimento público das organizações dos trabalhadores não era mais o único objetivo dos diversos movimentos. A autonomia dessas entidades também era vista como essencial. Os integrantes do I Congresso fariam questão de frisar tal anseio. No ponto específico sobre as “Associações de Lavradores”, foi proposta a “criação e reconhecimento pelos poderes públicos: autonomia completa sem dependência de qualquer Ministério”.
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Ainda em meados da década de 1950, a sindicalização no campo era um “projeto” ainda distante. O então diretor geral do Departamento Nacional do Trabalho frisava que ela não seria “promovida sem meticuloso e seguro exames das condições de trabalho das diferentes regiões agrícolas do país”. Ou seja, o governo não tinha qualquer pressa em implementar a lei de sindicalização.
Ao mesmo tempo, não fazer nada a respeito também representava um certo custo político. A listagem dos principais pontos do projeto a ser viabilizado deixa claro que a possível insatisfação dos grandes proprietários não era a única preocupação do governo. Além da “fixação do homem ao campo” e do “aprimoramento técnico e social do trabalhador rural”, o projeto deveria ser um eficaz instrumento de “combate à ação subversiva dos elementos comunistas da esquerda”. E acrescentava: “O avanço vermelho no campo devia-se ao menor policiamento que nos centros urbano”.
A campanha contra a sindicalização rural, em particular, e uma certa criminalização da própria atividade sindical, de maneira geral, era enormemente inspirada no ideário anti-comunista. Nesse sentido, os relatórios internos das polícias da época são bastante instrutivos do pensamento dominantes sobre o tema por parte das forças repressivas.
Ao mesmo tempo que aumentava a frequência das ações de protestos dos lavradores, tinha-se o aumento do número de suas organizações. Em novembro de 1956, já faziam companhia às organizações acima mencionadas a Associação Rural de Jacarepaguá, a Associação de Lavradores de Guaratiba, a Associação de Lavradores e Posseiros de Piaí (Sepetiba), a Associação de Lavradores de Campo Grande e a Associação de Lavradores de Mato Alto. Há que se destacar, portanto, o processo de gênese dessas associações: quase todas surgem em localidades envolvidas em conflitos e disputas de terras. A linguagem e a identidade enunciadas por meio das ações de tais entidades eram forjadas em estrita oposição à figura do “grileiro”. Não é por acaso que a Associação Rural de Jacarepaguá estabelecia que “somente lavradores podem associar-se, por esta razão um coronel morador no local não participa do quadro social”.
Não se pode deixar de lado o papel da seção carioca do PCB na articulação de várias dessas organizações. Algo que nunca cessou por completo, mesmo com a proscrição do partido em 1947. E a partir de 1954, os comunistas ainda teriam o reforço nessa tarefa da cobertura do jornal Terra Livre, que era um órgão comunista voltado exclusivamente para a organização dos trabalhadores e conflitos de terra no meio rural. O jornal não só realizava a cobertura dos acontecimentos, como atuava abertamente no fomento e no patrocínio para a criação de entidades organizativas de trabalhadores rurais. O editor-chefe do Terra Livre, Lyndolpho Silva (futuro dirigente sindical e presidente da ULTAB), chegaria a participar da fundação da Associação dos Lavradores do Sertão Carioca. Aliás, Lyndolpho só não participou como foi eleito seu vice-presidente (Terra Livre, 2º quinzena de agosto de 1954. p. 5).
Anos depois, durante a I Conferência dos Lavradores do Distrito Federal de 1958, entre os pontos aprovados no documento final do evento encontramos a solicitação por cooperativas “autônomas, sendo administradas por uma Diretoria e um Conselho constituído – exclusivamente – dos cooperados”. Além disso, deveria caber “às cooperativas o privilégio da venda dos produtos agrícolas e criações próprias, nas feiras e mercados; e funcionarão como de consumo para fornecimento exclusivo a seus cooperados”. Os conferencistas ainda propunham um ponto extremamente polêmico, que era retirar do Ministério da Agricultura – tradicionalmente associado aos grandes proprietários – o poder de jurisdição sobre aquelas entidades: “Caberá às Secretarias de Agricultura o registro – das Cooperativas e associações rurais, para efeito da legalidade, sem qualquer interferência administrativa – podendo fornecer estatutos padrão e dar posse à primeira diretoria”.
O surgimento das Associações de Lavradores e o desenvolvimento de várias iniciativas por parte delas influenciou na alteração da funcionalidade de outras organizações. A Colônia de Pescadores de Pedra de Guaratiba que financiou a defesa jurídica dos lavradores de região que lutavam contra Pedro Moacir e os do A.B.C. O próprio Sindicato dos Empregadores Rurais do vereador João Luiz de Carvalho viu-se na obrigação de tomar medidas capazes de fazer frente à competição feita por aquelas associações. Nesse contexto, a prestação de assistência médica e dentária já não tinha o mesmo poder de atração de antes.
Com a regulamentação da sindicalização no campo promovida pelo governo de João Goulart em 1963, as Associações de Lavradores (sociedades civis com simples registro em cartório) buscaram se converter em Sindicatos reconhecidos pelo Ministério do Trabalho, ou seja, em organizações respaldadas pelo reconhecimento oficial. Contudo, essa era uma reivindicação que remontava aos meados da década anterior: em 1955, por exemplo, o Ministério do Trabalho acolhia um processo da Associação dos Lavradores do Sertão Carioca, com sede no Mendanha, que pedia o seu “reconhecimento” como sindicato. No ano seguinte, era a vez da Associação dos Trabalhadores Rurais Autônomos Profissionais, com sede em Campo Grande, fazer o mesmo. O ano de 1961 já havia chegado e essas entidades ainda não tinham ainda sua “Carta Sindical” (documento que formalizava este tipo de reconhecimento). Iniciada a “onda da sindicalização rural” dois anos depois, outras associações buscaram seguir o exemplo daquelas duas. A idéia era criar um sindicato para cada uma das categorias de trabalhadores rurais presentes no Sertão Carioca, como “posseiros”, “arrendatários”, e até mesmo “assalariados” e “pequenos Proprietários” As medidas para isso estavam sendo tomadas. Em dezembro de 1963, a Associação Rural de Jacarepaguá convidava “posseiros” e “arrendatários” da Guanabara para “a grande assembléia”, num domingo, “às 17 horas”, com vistas à criação de um Sindicato dos respectivos grupos. “Nos seguintes domingos” (01 e 08 de dezembro), pretendia-se criar os sindicatos de “assalariados” e “pequenos proprietários”.
Contudo, o Golpe de 1964 poria um duro ponto final a todo aquele projeto.





