Em Brasília, o poder raramente anda de ônibus — mas às vezes exagera até no voo. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União decidiu acionar o TCU para apurar o uso de aeronaves da Força Aérea Brasileira pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.
A suspeita é direta e incômoda: jatinhos militares teriam sido usados como táxi VIP, sem interesse público que os justificasse.
Não se trata de preciosismo contábil. O questionamento toca no nervo central da República: o uso de recursos do Estado para conforto pessoal de autoridades.
A história brasileira conhece bem esse enredo. Desde o patrimonialismo descrito por Raymundo Faoro, o Estado frequentemente foi tratado como extensão do quintal privado das elites dirigentes. A FAB, criada para defesa nacional, não entra nessa conta como serviço de concierge.
“Quando o poder confunde função pública com conveniência privada, o erário vira bagagem despachada.”
Voos sem agenda, réveillon de luxo
Um dos episódios citados ocorreu no fim do ano passado. Hugo Motta solicitou um avião da FAB para viajar de João Pessoa ao Rio de Janeiro, sem qualquer compromisso oficial registrado. O destino final não foi uma reunião de Estado, mas o réveillon em Angra dos Reis, hospedado em condomínio de alto padrão, acompanhado de aliados políticos.
O voo transportou 11 passageiros, cujos nomes não foram divulgados. Para o Ministério Público, a combinação de ausência de agenda institucional e falta de transparência sobre os ocupantes reforça a necessidade de investigação.
Não foi exceção
A representação aponta que o uso das aeronaves militares não foi episódico. Em 2025, Motta teria recorrido à FAB para deslocamentos ligados a eventos do mercado, encontros sociais com empresários e até fóruns jurídicos internacionais organizados por um ministro do STF, realizados fora do país.
Nada disso é, por si só, ilegal. O problema é o critério. Aviões da FAB não existem para oferecer conforto superior a autoridades que poderiam usar voos comerciais, salvo em situações claras de interesse público ou risco à segurança.
A moralidade em xeque
No pedido encaminhado ao TCU, o subprocurador-geral Lucas Furtado foi explícito: o padrão de uso sugere afastamento dos parâmetros éticos exigidos pela administração pública. Na avaliação do MP, a aviação militar estaria sendo tratada como alternativa “mais confortável”, apesar dos custos elevados e da ausência de justificativa plausível.
Em linguagem menos jurídica: privilégio travestido de necessidade.
Mais que um caso individual
O episódio ultrapassa a figura de Hugo Motta. Ele expõe uma cultura política que naturaliza benefícios indevidos e reage com surpresa quando é cobrada. O TCU agora terá de responder se o cargo autoriza o luxo ou se a República ainda exige limites.
Se confirmadas irregularidades, o caso se soma a uma longa lista de escândalos que alimentam a descrença na política. Se arquivado sem explicações robustas, reforça a percepção de que há sempre uma pista especial para quem manda.

