Há momentos em que o verbo inflama mais que a pólvora. Silas Malafaia, velho conhecido da simbiose entre púlpito e palanque, agora enfrenta o peso institucional do que chamou de “liberdade de expressão”. O ministro Alexandre de Moraes determinou que o pastor se explique ao Supremo Tribunal Federal após ataques diretos — ainda que sem CPF nominal — ao Alto Comando do Exército brasileiro.
O episódio remonta a abril do ano passado, na Avenida Paulista, em um ato convocado por Jair Bolsonaro para pressionar por anistia aos responsáveis pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. No palanque, Malafaia vociferou contra generais de quatro estrelas, chamando-os de “frouxos”, “covardes” e “omissos”, afirmando que “não honram a farda que vestem”. A fala, amplificada nas redes sociais, ultrapassou centenas de milhares de visualizações.
Como em tragédias clássicas, de Ésquilo a Shakespeare, o coro pode não citar nomes — mas todos sabem quem está no palco.
“Quando o insulto se fantasia de opinião, o ataque à democracia passa a se vender como fé.”
Da retórica ao enquadramento jurídico
A Procuradoria-Geral da República avaliou que o discurso atingiu diretamente o comandante do Exército e sugeriu prática de crime funcional, como prevaricação. Para o procurador-geral Paulo Gonet, a gravidade não reside apenas nas palavras, mas na estratégia: discurso público, contexto golpista e difusão deliberada em plataformas digitais.
Por essa razão, o caso foi remetido ao gabinete de Moraes, relator dos inquéritos que investigam redes de desinformação e articulações antidemocráticas. Mesmo durante o recesso do Judiciário, o ministro determinou a notificação do pastor, que recebeu a intimação dias depois.
A defesa previsível: perseguição e vitimização
Malafaia reagiu como manda o roteiro. Alegou ausência de foro privilegiado, disse não ter citado nomes e acusou Moraes e Gonet de perseguição política. Transformou o processo em prova de que, segundo ele, o STF criminaliza opiniões.
É um argumento recorrente no léxico do bolsonarismo: atacar instituições, deslegitimar a Justiça e, quando confrontado, vestir-se de vítima. O paradoxo é evidente — reivindica-se liberdade absoluta para atacar, mas nega-se qualquer consequência jurídica.
Militares, silêncio e democracia
O pano de fundo é mais amplo. Desde 2023, o Exército tenta reconstruir sua imagem institucional após o flerte de setores da caserna com o golpismo. Os ataques de Malafaia atingem exatamente esse ponto sensível: pressionar militares a “marcar posição” fora dos limites constitucionais.
Na história republicana brasileira, sempre que civis exaltados tentaram arrastar as Forças Armadas para disputas políticas, o resultado foi instabilidade — de 1954 a 1964, da quartelada ao regime. O STF, desta vez, sinaliza que não tratará como retórica inofensiva aquilo que ecoa como incitação.

