O mercado de almas em Brasília funciona com a precisão de um relógio suíço, mas com a higiene de um lixão a céu aberto. O deputado Félix Mendonça Jr. (PDT-BA) é o mais novo expoente da tradição do clientelismo rasteiro a cair nas redes da Operação Overclean, deflagrada nesta terça-feira. Enquanto a Bahia real padece com a precariedade, a elite do atraso encastelada no Congresso prefere a espoliação sistemática do Orçamento da União, transformando emendas parlamentares em moedas de troca para um enriquecimento ilícito e cafona.
A investigação da Polícia Federal desenha um cenário de gatunagem institucionalizada: o parlamentar utilizava seu secretário, Marcelo Chaves, como um corretor de desvios. O esquema consistia em despejar R$ 4 milhões em prefeituras baianas sob a condição de que o “retorno” fosse garantido por meio de licitações viciadas. No Diário Carioca, tratamos o fato pelo nome que a história reserva a esses episódios: é a sobrevivência do coronelismo que trocou o chicote pela transferência eletrônica, mantendo a mesma lógica de sangria do patrimônio público para sustentar feudos eleitorais.
O balcão de negócios entre o gabinete e a prefeitura
Marcelo Chaves não operava no vácuo; ele era o braço operacional de uma engrenagem desenhada para a rapina. Segundo a CGU e a PF, o assessor negociava os repasses como quem vende mercadoria em feira livre, cobrando pedágio de prefeitos coniventes. Essa simbiose criminosa é o retrato fiel da “corrupção legalizada” que as reformas políticas de gabinete jamais conseguiram extirpar. O dinheiro que deveria construir escolas e hospitais em Salvador, Mata de São João e Vera Cruz acabou irrigando as contas de uma organização que trata o Estado como propriedade privada.
Abaixo, os números que escancaram a voracidade da elite política:
| O artifício do esquema | A função na engrenagem criminosa | A fatura apresentada pela PF |
| Emendas de relator | Combustível para a compra de apoio e luxo. | R$ 4 milhões sob suspeita direta. |
| Marcelo Chaves | Intermediário e operador do “pedágio” político. | Negociador das fraudes em licitações. |
| Bloqueio judicial | Medida para estancar a sangria dos cofres. | R$ 24 milhões congelados pelo STF. |
Nunes Marques e o limite da blindagem política
Nem mesmo a benevolência costumeira das cortes superiores foi capaz de ocultar o rastro de lama deixado pela Overclean. O ministro Kássio Nunes Marques, ao autorizar nove mandados de busca e apreensão e o sequestro de milhões em bens, carimbou a urgência de desmantelar esse bunker de peculato. As buscas no imóvel funcional do deputado em Brasília mostram que a imunidade parlamentar não pode continuar servindo de salvo-conduto para a criminalidade de colarinho branco.
Historicamente, a Bahia de Félix Mendonça Jr. é refém de clãs que se revezam no poder através da manipulação do erário. Essa espoliação não é um erro de percurso, é o projeto de poder da direita e de seus satélites fisiológicos. O Diário Carioca mantém a vigilância: não permitiremos que o escândalo de hoje seja esquecido na gaveta de amanhã, enquanto os mercadores de emendas continuam a banquetear-se com o suor do trabalhador brasileiro.

