O mercado financeiro, esse organismo hipocondríaco que reage com febres altas a qualquer brisa vinda do Pacífico, viveu mais um dia de ajustes cosméticos.
O dólar, entidade que para muitos é a bússola moral da sobrevivência econômica, encerrou o pregão em queda de 0,13%, fixando-se em singelos R$ 5,27.
Para o desatento, um alento; para o analista que não se deixa seduzir pela superfície, apenas o sintoma de que o centro do mundo se deslocou, ainda que por poucas horas, para as ilhas de Tóquio.
O fantasma do Sol Nascente
A gênese deste recuo não reside em qualquer mérito da nossa política doméstica — sempre tão tateante quanto um cego em tiroteio —, mas sim em uma crise de confiança que brotou no mercado asiático.
O Japão, historicamente o porto seguro dos juros negativos e da deflação persistente, ensaia um movimento que apavora os rentistas: o corte de impostos e o aumento de gastos públicos. O que para o cidadão comum soa como justiça social, para o investidor soa como o apocalipse da inflação e do endividamento.
A percepção de que o Banco do Japão pode, finalmente, abandonar sua letargia e elevar as taxas de juros colocou em xeque o carry trade — essa arquitetura da malandragem financeira onde se toma dinheiro barato onde o juro é nada para emprestá-lo onde o juro é tudo. Quando o iene ameaça encarecer, as fichas do cassino global começam a voar das mesas.
A hegemonia em xeque no DXY
O enfraquecimento da divisa americana não foi uma exclusividade brasileira. O índice DXY, que mede o vigor do dólar contra uma cesta de moedas de nações que, ao contrário de nós, ainda acreditam na força de suas indústrias, caiu 0,54%.
É a prova cabal de que, no grande tabuleiro, o dólar é um rei com pés de barro, cujas botas se sujam sempre que o iene ou o euro decidem cobrar o preço da estabilidade.
Enquanto isso, o euro segue sua marcha imperial, cotado a R$ 6,27, lembrando ao brasileiro que atravessar o Atlântico continua sendo um luxo reservado aos que dominam a arte da acumulação ou aos que herdaram o que outros suaram para construir.
A tabela de cotações cruzadas, que publicamos abaixo, não é apenas um guia para turistas, mas um mapa da nossa irrelevância monetária: o real segue sendo a moeda do “quase”, operando nas margens de decisões tomadas em escritórios climatizados onde o português é apenas um dialeto exótico.
Esta tabela indica quanto vale 1 unidade da moeda da linha (vertical) em relação à moeda da coluna (horizontal).
| Moeda | Código | BRL (Real) | USD (Dólar) | EUR (Euro) | GBP (Libra) | JPY (Iene) |
| Real | BRL | 1 | 0,1894 | 0,1594 | 0,1385 | 29,1618 |
| Dólar | USD | 5,2795 | 1 | 0,8416 | 0,7309 | 153,94 |
| Euro | EUR | 6,2737 | 1,1883 | 1 | 0,8685 | 182,92 |
| Libra | GBP | 7,2228 | 1,3683 | 1,1515 | 1 | 210,63 |
| Iene | JPY | 0,0342 | 0,0065 | 0,0054 | 0,0047 | 1 |
| Franco Suíço | CHF | 6,7993 | 1,2881 | 1,0841 | 0,9415 | 198,30 |
Como ler este mapa do capital
- O Rei Ferido: Note que o USD (Dólar) fechou a R$ 5,27, mas no cruzamento com o JPY (Iene), ele ainda ostenta uma força de 153 unidades. É esse desequilíbrio que faz o mercado tremer quando o Japão ameaça subir juros.
- A Fortaleza Europeia: O Euro a R$ 6,27 consolida-se como a barreira intransponível para o turista médio e o porto seguro para quem foge da volatilidade americana.
- A Insignificância do Real: Olhe para a linha do BRL. Precisamos de quase 30 unidades da nossa moeda para comprar um único Iene japonês, a moeda que, ironicamente, causou o soluço do dólar hoje.
O peso do endividamento público O que o episódio japonês nos ensina, com o tom pedagógico de quem já viu impérios ruírem, é que o capital não tem pátria, mas tem memória.
A tentativa de estimular o consumo via gasto público, se não ancorada na produtividade real, é o caminho mais rápido para a desvalorização cambial. O dólar caiu hoje, sim, mas caiu por medo de algo pior. E no mercado, o medo de hoje é sempre o lucro — ou a ruína — de amanhã.
