Quando Pequim abandona a diplomacia do silêncio e sobe o tom, o recado costuma ser calculado — e global. Foi o que ocorreu neste sábado, quando a China condenou de forma dura o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a ação direta contra Nicolás Maduro, enquadrando Washington por práticas hegemonistas e exigindo respeito à soberania de outros países.
O sermão que atravessa o Pacífico
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou estar “profundamente chocado” com o uso da força pelos Estados Unidos contra um Estado soberano. O texto não economiza termos: fala em violação flagrante do direito internacional, ameaça à paz regional e risco à segurança de toda a América Latina e do Caribe.
Mais do que uma defesa pontual de Caracas, o comunicado mira o método. Ao condenar a captura do presidente venezuelano e os bombardeios em seu território, Pequim questiona a normalização de intervenções unilaterais como instrumento legítimo de política externa.
“Quando a força vira regra, o direito internacional vira rodapé.”
Multilateralismo como trincheira
A chancelaria chinesa fez um apelo direto aos Estados Unidos para que cumpram os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e cessem, nas palavras do comunicado, “as violações da soberania e da segurança de outros países”. Trata-se de um posicionamento que reforça a estratégia chinesa de se apresentar como defensora da legalidade internacional em contraste com a política de ação direta de Washington.
O discurso não é novo, mas ganha peso no contexto atual, em que Rússia, Irã, Cuba e países latino-americanos também reagiram com críticas à ofensiva americana. A diferença é que, vinda da China, a condenação carrega implicações geopolíticas mais amplas.
Um eco da velha ordem — e do novo mundo
Há um paralelo histórico inevitável. Durante a Guerra Fria, intervenções eram justificadas em nome da contenção ideológica. No século XXI, reaparecem embaladas por discursos de combate ao crime, ao terrorismo ou à “libertação”. Pequim, ao denunciar o caráter hegemonista da ação americana, tenta enquadrar o episódio como sintoma de uma ordem internacional em erosão — e, ao mesmo tempo, se posicionar como pilar alternativo dessa ordem.
A mensagem é clara: a crise venezuelana deixou de ser apenas regional. Ao violar soberania alheia sob aplausos seletivos, os Estados Unidos reacendem um debate que vai muito além de Caracas — sobre quem define as regras e quem paga quando elas são quebradas.

