Dentro do Air Force One, longe de qualquer constrangimento diplomático, Donald Trump abandonou o eufemismo. Não falou em democracia, nem em estabilidade regional. Falou em petróleo. “Precisamos de acesso total”, disse, referindo-se aos recursos da Venezuela. Quando um chefe de Estado admite que o objetivo central de uma operação militar é controlar riquezas naturais, o debate deixa o campo da geopolítica sofisticada e entra no terreno cru do saque.
A sequência não é acidental. Após a captura de Nicolás Maduro e o bombardeio de bairros de Caracas, Trump deixou claro que a Venezuela não é um caso isolado, mas parte de um tabuleiro maior. Cuba, segundo ele, “está prestes a cair” porque depende do petróleo venezuelano. A mensagem é inequívoca: quem controla a energia controla os governos.
Na história, isso tem nome conhecido. Do imperialismo do século XIX, descrito por Joseph Conrad e Hannah Arendt, às guerras por petróleo do século XX, a retórica da “necessidade estratégica” sempre foi o verniz moral do roubo organizado. A diferença, em 2026, é a franqueza brutal.
“Quando o presidente de uma potência diz que precisa do petróleo de outro país, a democracia vira pretexto e o roubo vira política de Estado.”
Venezuela: recursos sob custódia armada
Trump afirmou que os EUA não governarão a Venezuela, mas o próprio secretário de Estado, Marco Rubio, confirmou o uso do bloqueio do petróleo como instrumento de pressão. Trata-se de uma contradição clássica: não se governa formalmente, mas se controla o que mantém o país vivo. Na prática, é tutela econômica imposta pela força.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, respondeu com linguagem diplomática, defendendo soberania, não intervenção e cooperação internacional. O contraste é revelador: de um lado, o direito internacional; do outro, a lei do mais forte.
Colômbia: a ameaça aberta
Trump foi além. Chamou o presidente colombiano, Gustavo Petro, de “homem doente”, associou o governo ao narcotráfico e disse que uma operação militar na Colômbia lhe parecia “uma boa ideia”. Não é mais pressão indireta. É intimidação explícita, transmitida ao vivo, como se a soberania alheia fosse detalhe descartável.
Cuba e o cerco energético
Ao declarar que Cuba deixará de receber petróleo venezuelano, Trump assumiu a lógica do estrangulamento econômico como arma política. Não se trata de mudança de regime por vontade popular, mas por asfixia material — método antigo, repetidamente condenado por organismos internacionais.
O padrão que se consolida
Venezuela, Groenlândia, Cuba, Colômbia: o fio condutor é o mesmo. Territórios, recursos e governos passam a ser tratados como ativos estratégicos disponíveis à força. A retórica já não tenta convencer; apenas avisa.

