A cena é curta, mas carregada de significado histórico. Nicolás Maduro caminha por um corredor da agência antidrogas dos Estados Unidos, escoltado por agentes federais, e lança um cumprimento casual — “boa noite”, seguido de um “feliz ano-novo” em inglês. Não é um gesto de cordialidade: é um aceno irônico de quem sabe que sua imagem, naquele instante, vale mais do que qualquer discurso.
As imagens, exibidas pela imprensa norte-americana, confirmam que o líder venezuelano já está em solo dos EUA, detido em Nova York após ter sido capturado em uma operação militar conduzida pelo governo de Donald Trump em Caracas. O fato, por si só, já ultrapassa o campo policial e entra diretamente na história das intervenções internacionais.
O teatro do poder e a construção do réu
Ao mostrar Maduro dentro das instalações da DEA, Washington constrói uma narrativa precisa: não se trata de um chefe de Estado deposto, mas de um acusado comum, enquadrado como narcotraficante e criminoso federal. A Procuradoria dos EUA sustenta que ele responderá a processos relacionados ao tráfico internacional de drogas e outros delitos graves.
A ausência de informações sobre audiências ou garantias processuais reforça a leitura de que o espetáculo midiático antecede — e talvez substitua — o rito jurídico.
Caracas fala em sequestro, o mundo fala em precedente
Autoridades venezuelanas reagiram classificando a operação como ilegal e denunciaram a retirada forçada do presidente como um sequestro, em afronta direta ao direito internacional. O governo exige esclarecimentos formais sobre o paradeiro e as condições de detenção de Maduro.
O episódio não é apenas bilateral. Ele reabre uma ferida antiga na América Latina: até onde vai o poder de uma superpotência quando decide capturar, julgar e exibir um líder estrangeiro em território próprio?
De Napoleão a Noriega: quando a queda vira espetáculo
Há paralelos inevitáveis. Napoleão Bonaparte, derrotado, foi exibido como troféu político antes do exílio. Manuel Noriega, no fim do século XX, foi levado algemado aos EUA após invasão do Panamá, transformado em símbolo do “combate ao crime”. Em todos os casos, a justiça caminhou de mãos dadas com a demonstração de força.
“Quando a justiça precisa de câmeras para se legitimar, o poder já falou mais alto que o direito.”
Uma crise que ultrapassa Maduro
A detenção de Maduro aprofunda a ruptura entre Estados Unidos e Venezuela e provoca reações imediatas de governos latino-americanos e organismos internacionais. Mais do que o destino de um homem, está em jogo a normalização de intervenções diretas sob o verniz do combate ao crime.
A ironia do “feliz ano-novo”, dita sob escolta, talvez seja o resumo mais preciso do momento: um novo ano começa, mas velhas práticas imperiais seguem intactas.

