Há momentos em que a diplomacia abandona o eufemismo e fala em voz clara. Foi o que ocorreu no Conselho de Segurança da ONU quando o Brasil decidiu romper o tom neutro e condenar, sem rodeios, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela. O embaixador Sérgio Danese classificou a ofensiva como violação frontal do direito internacional e um risco real à própria ideia de ordem global.
Não se tratou de um discurso protocolar. Foi um alerta. Quando um país poderoso redefine unilateralmente os limites da força, o que está em jogo não é apenas um governo específico, mas o pacto civilizatório que sustenta o sistema internacional desde o pós-guerra.
Na história, episódios semelhantes sempre carregaram consequências duradouras. Da doutrina do “destino manifesto” às intervenções da Guerra Fria, a normalização do uso da força em nome de causas supostamente superiores produziu instabilidade, autoritarismo e ruínas humanas. A Carta da ONU nasceu justamente para conter esse impulso.
“Quando a força passa a falar mais alto que a lei, o mundo inteiro entra em julgamento.”
A Carta da ONU sob ataque
Danese foi direto ao ponto: a Carta das Nações Unidas proíbe o uso da força contra a integridade territorial e a independência política de qualquer Estado, salvo exceções muito específicas. Relativizar esse princípio, segundo o Brasil, equivale a desmontar o alicerce do multilateralismo.
O embaixador advertiu que aceitar esse tipo de precedente empurra o mundo para um cenário de violência institucionalizada, no qual a vontade dos mais fortes se impõe como regra.
O mundo já em combustão
Para sustentar o alerta, o diplomata apresentou um retrato sombrio do presente. O planeta vive o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial, com dezenas de guerras ativas, milhões de deslocados e gastos militares que se aproximam de cifras obscenas. Não se trata de abstração: trata-se de vidas.
Ao citar tragédias humanitárias recentes, Danese deixou claro que o enfraquecimento das normas internacionais tem custo humano imediato — e irreversível.
América Latina e a memória das intervenções
O discurso ganhou peso histórico ao abordar a América Latina. O Brasil reafirmou a região como uma zona de paz construída a duras penas, após décadas marcadas por intervenções externas, ditaduras e violações sistemáticas de direitos humanos.
Reabrir esse capítulo, segundo Danese, não é apenas um erro político — é uma regressão histórica.
Um precedente sem paralelo recente
O ponto mais sensível foi a caracterização do episódio venezuelano como algo sem precedentes recentes na América do Sul: bombardeios, envio de tropas estrangeiras e captura de um chefe de Estado em país vizinho ao Brasil, com extensa fronteira comum.
Esse dado desloca o debate do plano abstrato para o concreto. Não é um conflito distante. É uma ruptura que toca diretamente a segurança regional.
Pressão diplomática e cobrança ao Conselho
O posicionamento brasileiro se insere em uma articulação diplomática mais ampla, envolvendo líderes europeus e latino-americanos. O objetivo é conter a escalada e reafirmar que o destino da Venezuela deve ser decidido pelos próprios venezuelanos, sem imposição externa.
No encerramento, o recado foi inequívoco: cabe ao Conselho de Segurança escolher entre a lei e a força. A omissão, nesse contexto, também é uma forma de escolha.

