Há prêmios que consagram trajetórias; outros escancaram contradições. Ao afirmar que pretende “dar” ou dividir seu Prêmio Nobel da Paz com Donald Trump, María Corina Machado cruzou uma fronteira simbólica delicada: a do reconhecimento moral transformado em gesto de submissão política.
Em entrevista à Fox News, a líder da oposição venezuelana agradeceu efusivamente ao presidente dos Estados Unidos pela operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, classificando a ação como um avanço “para a humanidade, a liberdade e a dignidade humana”. O entusiasmo, no entanto, contrasta com a frieza do destinatário da homenagem.
Do ideal wilsoniano ao realismo brutal
Desde Woodrow Wilson, o Nobel da Paz flerta perigosamente com o poder. Henry Kissinger o recebeu em meio a bombardeios; Barack Obama, antes de governar. A fala de Maria Corina se insere nessa tradição ambígua, mas vai além: não apenas celebra a força como instrumento de paz, como tenta transferir simbolicamente a honra a quem sempre cobiçou o troféu.
“Quando a paz vira troféu de guerra, o Nobel deixa de ser símbolo e passa a ser barganha.”
O desprezo como resposta
Dias antes da entrevista, Trump havia descartado qualquer articulação com Machado, afirmando que ela “não tem o respeito do país” e que seria “muito difícil” vê-la como líder. A declaração desmonta a cena de gratidão pública e revela o desequilíbrio da relação: de um lado, a líder fragilizada que busca legitimidade; do outro, o presidente que prefere o controle direto a intermediários locais.
Nobel como moeda política
Machado foi anunciada como co-vencedora do Nobel da Paz após liderar o mais consistente desafio civil ao chavismo em anos recentes. Ainda assim, desde outubro, ela tenta associar explicitamente a honraria à figura de Trump — alguém que jamais escondeu seu ressentimento por não ter sido laureado. O prêmio, nesse contexto, deixa de ser coroação de um movimento popular e passa a funcionar como oferenda.
Um país sob tutela
Enquanto discursos circulam, o poder se reorganiza. Com Maduro respondendo a acusações em Nova York, Delcy Rodríguez assumiu interinamente a presidência prometendo cooperação com Washington. A Venezuela entra, assim, em uma nova fase: menos chavista, mas também menos soberana.
Maria Corina afirma que pretende voltar ao país “o mais rápido possível”. Resta saber se haverá espaço político para quem oferece símbolos quando o jogo já é jogado à força.

