Vergonha da Direita

Maria Corina barganha seu inacreditável Nobel com Trump em troca da Venezuela

Após ser descartada pelo republicano, líder venezuelana tenta converter intervenção militar em capital simbólico.
Maria Corina em entrevista à Fox News. Foto: reprodução
Maria Corina em entrevista à Fox News. Foto: reprodução
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

Há prêmios que consagram trajetórias; outros escancaram contradições. Ao afirmar que pretende “dar” ou dividir seu Prêmio Nobel da Paz com Donald Trump, María Corina Machado cruzou uma fronteira simbólica delicada: a do reconhecimento moral transformado em gesto de submissão política.

Em entrevista à Fox News, a líder da oposição venezuelana agradeceu efusivamente ao presidente dos Estados Unidos pela operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro, classificando a ação como um avanço “para a humanidade, a liberdade e a dignidade humana”. O entusiasmo, no entanto, contrasta com a frieza do destinatário da homenagem.

Do ideal wilsoniano ao realismo brutal

Desde Woodrow Wilson, o Nobel da Paz flerta perigosamente com o poder. Henry Kissinger o recebeu em meio a bombardeios; Barack Obama, antes de governar. A fala de Maria Corina se insere nessa tradição ambígua, mas vai além: não apenas celebra a força como instrumento de paz, como tenta transferir simbolicamente a honra a quem sempre cobiçou o troféu.

“Quando a paz vira troféu de guerra, o Nobel deixa de ser símbolo e passa a ser barganha.”

O desprezo como resposta

Dias antes da entrevista, Trump havia descartado qualquer articulação com Machado, afirmando que ela “não tem o respeito do país” e que seria “muito difícil” vê-la como líder. A declaração desmonta a cena de gratidão pública e revela o desequilíbrio da relação: de um lado, a líder fragilizada que busca legitimidade; do outro, o presidente que prefere o controle direto a intermediários locais.

Nobel como moeda política

Machado foi anunciada como co-vencedora do Nobel da Paz após liderar o mais consistente desafio civil ao chavismo em anos recentes. Ainda assim, desde outubro, ela tenta associar explicitamente a honraria à figura de Trump — alguém que jamais escondeu seu ressentimento por não ter sido laureado. O prêmio, nesse contexto, deixa de ser coroação de um movimento popular e passa a funcionar como oferenda.

Um país sob tutela

Enquanto discursos circulam, o poder se reorganiza. Com Maduro respondendo a acusações em Nova York, Delcy Rodríguez assumiu interinamente a presidência prometendo cooperação com Washington. A Venezuela entra, assim, em uma nova fase: menos chavista, mas também menos soberana.

Maria Corina afirma que pretende voltar ao país “o mais rápido possível”. Resta saber se haverá espaço político para quem oferece símbolos quando o jogo já é jogado à força.

Recomendadas