Quando a retórica presidencial transforma aliados em hipóteses de anexação, o problema deixa de ser retórico e passa a ser estratégico. As falas recentes de Donald Trump sobre a Groenlândia e o Canadá não configuram planos formais, mas produzem efeitos reais: corroem a confiança, alarmam parceiros e testam os limites da ordem internacional baseada em alianças.
Do Destino Manifesto do século XIX às expansões travestidas de segurança no pós-Guerra Fria, a história americana conhece a tentação territorial. Tocqueville já advertia que democracias poderosas podem confundir interesse nacional com direito natural. O eco contemporâneo é inquietante.

“Quando a força se apresenta como argumento, a diplomacia vira nota de rodapé.”
O gatilho: Venezuela no espelho
Canadenses acompanham a ofensiva dos EUA contra a Venezuela com atenção redobrada. A distância continental, antes um amortecedor psicológico, perde efeito quando Washington normaliza a linguagem da intervenção. Se acusações de “narco-state” podem ser acionadas por conveniência política, a fronteira longa e desguarnecida do Canadá vira variável sensível.
Drogas como pretexto
Trump já acusou Ottawa de facilitar a entrada de fentanil e classificou o país como ameaça à segurança nacional, apesar de dados oficiais indicarem que o Canadá responde por menos de 1% das apreensões de drogas na fronteira bilateral. O contraste entre números e discurso reforça a leitura de instrumentalização do tema.
Energia no centro do tabuleiro
O petróleo é outro eixo. A Venezuela é rotulada como petrostate; o Canadá, por sua vez, abriga em Alberta a quarta maior reserva comprovada de petróleo do mundo. Grande parte dessa produção abastece refinarias americanas. Segurança energética, nesse contexto, mistura interdependência com assimetria de poder.
Alianças sob tensão
A cooperação militar via Norad, símbolo histórico de confiança, passa a conviver com declarações sobre o Canadá como “51º estado”. O caso da Groenlândia agrava o quadro: território autônomo ligado à Dinamarca, membro da OTAN, a ilha foi descrita por Trump como “necessária” aos EUA. Copenhague reagiu com firmeza; Nuuk rejeitou qualquer debate sobre anexação.
Respostas diplomáticas
Ottawa alinhou-se publicamente à Dinamarca. O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que apenas os groenlandeses decidem seu futuro. A ministra Anita Anand anunciou a abertura de um consulado canadense na Groenlândia, sinalizando presença e compromisso. O debate interno se intensificou, observado de perto por veículos conservadores nos EUA.
O precedente que preocupa
Analistas alertam: a sequência Venezuela–Groenlândia–Canadá sugere um padrão discursivo que normaliza a exceção. A diferença decisiva é geográfica. O Canadá está próximo demais para tratar a retórica como ruído distante. Em geopolítica, palavras não são neutras — criam precedentes.

