Déspota Descontrolado

Após roubar a Venezuela e ameaçar a Groenlândia, Trump agora que anexar o Canadá

Declarações sobre anexação e segurança reacendem temores em Ottawa e expõem um padrão expansionista na política externa dos EUA.
Protestos contra Donald Trump em Vancouver, no Canadá - Foto de Margarita_Young
Protestos contra Donald Trump em Vancouver, no Canadá - Foto de Margarita_Young
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

Quando a retórica presidencial transforma aliados em hipóteses de anexação, o problema deixa de ser retórico e passa a ser estratégico. As falas recentes de Donald Trump sobre a Groenlândia e o Canadá não configuram planos formais, mas produzem efeitos reais: corroem a confiança, alarmam parceiros e testam os limites da ordem internacional baseada em alianças.

Do Destino Manifesto do século XIX às expansões travestidas de segurança no pós-Guerra Fria, a história americana conhece a tentação territorial. Tocqueville já advertia que democracias poderosas podem confundir interesse nacional com direito natural. O eco contemporâneo é inquietante.

Publicação de Donald Trump mostra ambos os territórios dos EUA e do Canadá cobertos por uma bandeira americana. Foto: Reprodução
Publicação de Donald Trump mostra ambos os territórios dos EUA e do Canadá cobertos por uma bandeira americana. Foto: Reprodução

“Quando a força se apresenta como argumento, a diplomacia vira nota de rodapé.”

O gatilho: Venezuela no espelho

Canadenses acompanham a ofensiva dos EUA contra a Venezuela com atenção redobrada. A distância continental, antes um amortecedor psicológico, perde efeito quando Washington normaliza a linguagem da intervenção. Se acusações de “narco-state” podem ser acionadas por conveniência política, a fronteira longa e desguarnecida do Canadá vira variável sensível.

Drogas como pretexto

Trump já acusou Ottawa de facilitar a entrada de fentanil e classificou o país como ameaça à segurança nacional, apesar de dados oficiais indicarem que o Canadá responde por menos de 1% das apreensões de drogas na fronteira bilateral. O contraste entre números e discurso reforça a leitura de instrumentalização do tema.

Energia no centro do tabuleiro

O petróleo é outro eixo. A Venezuela é rotulada como petrostate; o Canadá, por sua vez, abriga em Alberta a quarta maior reserva comprovada de petróleo do mundo. Grande parte dessa produção abastece refinarias americanas. Segurança energética, nesse contexto, mistura interdependência com assimetria de poder.

Alianças sob tensão

A cooperação militar via Norad, símbolo histórico de confiança, passa a conviver com declarações sobre o Canadá como “51º estado”. O caso da Groenlândia agrava o quadro: território autônomo ligado à Dinamarca, membro da OTAN, a ilha foi descrita por Trump como “necessária” aos EUA. Copenhague reagiu com firmeza; Nuuk rejeitou qualquer debate sobre anexação.

Respostas diplomáticas

Ottawa alinhou-se publicamente à Dinamarca. O primeiro-ministro Mark Carney afirmou que apenas os groenlandeses decidem seu futuro. A ministra Anita Anand anunciou a abertura de um consulado canadense na Groenlândia, sinalizando presença e compromisso. O debate interno se intensificou, observado de perto por veículos conservadores nos EUA.

O precedente que preocupa

Analistas alertam: a sequência Venezuela–Groenlândia–Canadá sugere um padrão discursivo que normaliza a exceção. A diferença decisiva é geográfica. O Canadá está próximo demais para tratar a retórica como ruído distante. Em geopolítica, palavras não são neutras — criam precedentes.

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