OS FATOS
- O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciou a soltura imediata de presos políticos como iniciativa unilateral de “convivência pacífica”.
- A medida ocorre sob a presidência interina de Delcy Rodríguez, instalada após a operação militar dos EUA que capturou Nicolás Maduro em 3 de janeiro.
- Washington, via Marco Rubio, já estruturou um plano de tutela política para a Venezuela, prevendo anistias e a reconstrução forçada da sociedade civil.
A Venezuela vive hoje o paradoxo de uma liberdade sob vigia. Ao anunciar a libertação de presos políticos como um “gesto unilateral”, o governo bolivariano remanescente tenta desesperadamente salvar o que resta de sua autonomia diante de um Donald Trump que já se autoproclama “tutor político” da nação. Como no clássico “O Outono do Patriarca”, de García Márquez, o poder em Caracas agora é um corpo fragmentado, onde o anúncio da paz soa como um eco distante em um palácio cercado pela sombra das botas estrangeiras. Libertar opositores, neste contexto, é menos um ato de clemência e mais um lance tático no tabuleiro de sobrevivência.
“A paz anunciada sob a mira de fuzis estrangeiros nunca é uma conquista soberana, mas a negociação do fôlego que resta antes da próxima intervenção.”
Qual o papel da mediação de Lula e Zapatero neste cenário de crise?
Embora Caracas negue uma negociação formal, a citação explícita ao presidente brasileiro e ao ex-premiê espanhol revela que o Itamaraty e Madri continuam sendo os únicos canais de oxigênio diplomático para evitar o caos total. A participação do Catar sugere que a logística dessas “libertações de paz” envolve garantias financeiras e humanitárias que vão além das fronteiras regionais. Para Lula, manter-se como mediador é estratégico: é a tentativa de garantir que a transição venezuelana não se transforme em uma anexação administrativa pelos Estados Unidos, preservando a pouca influência que resta ao multilateralismo na América Latina.
O plano de Marco Rubio representa o fim da soberania venezuelana?
O plano de três fases detalhado pelo Secretário de Estado Marco Rubio é, na prática, um manual de ocupação institucional. Ao prever a “estabilização”, a “reconstrução da sociedade civil” e a “transição política”, os EUA deixam claro que não pretendem apenas remover Maduro, mas redesenhar o DNA do Estado venezuelano. A libertação dos espanhóis Andrés Martínez e José María Basoa é apenas o primeiro movimento de um processo onde o destino da Venezuela será decidido em escritórios de Nova York e Washington, enquanto o país tenta entender como transitar entre um regime contestado e uma tutela estrangeira que Donald Trump promete ser “por muito mais tempo”.

