Soberania sob Tutela

Venezuela liberta presos políticos em “gesto de paz” sob tutela interina

Governo de Caracas tenta manter soberania após captura de Maduro, enquanto EUA desenham plano de intervenção em três fases para o país
Caracas/Venezuela - 05/01/2026 - MUNDO - Juramento de Posse da Presidente interina da Venezuela Delcy Rodriguez na Assembleia de Caracas. Foto: RS/Fotos Públicas
Caracas/Venezuela - 05/01/2026 - MUNDO - Juramento de Posse da Presidente interina da Venezuela Delcy Rodriguez na Assembleia de Caracas. Foto: RS/Fotos Públicas
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

OS FATOS

  • O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciou a soltura imediata de presos políticos como iniciativa unilateral de “convivência pacífica”.
  • A medida ocorre sob a presidência interina de Delcy Rodríguez, instalada após a operação militar dos EUA que capturou Nicolás Maduro em 3 de janeiro.
  • Washington, via Marco Rubio, já estruturou um plano de tutela política para a Venezuela, prevendo anistias e a reconstrução forçada da sociedade civil.

A Venezuela vive hoje o paradoxo de uma liberdade sob vigia. Ao anunciar a libertação de presos políticos como um “gesto unilateral”, o governo bolivariano remanescente tenta desesperadamente salvar o que resta de sua autonomia diante de um Donald Trump que já se autoproclama “tutor político” da nação. Como no clássico “O Outono do Patriarca”, de García Márquez, o poder em Caracas agora é um corpo fragmentado, onde o anúncio da paz soa como um eco distante em um palácio cercado pela sombra das botas estrangeiras. Libertar opositores, neste contexto, é menos um ato de clemência e mais um lance tático no tabuleiro de sobrevivência.

“A paz anunciada sob a mira de fuzis estrangeiros nunca é uma conquista soberana, mas a negociação do fôlego que resta antes da próxima intervenção.”

Qual o papel da mediação de Lula e Zapatero neste cenário de crise?

Embora Caracas negue uma negociação formal, a citação explícita ao presidente brasileiro e ao ex-premiê espanhol revela que o Itamaraty e Madri continuam sendo os únicos canais de oxigênio diplomático para evitar o caos total. A participação do Catar sugere que a logística dessas “libertações de paz” envolve garantias financeiras e humanitárias que vão além das fronteiras regionais. Para Lula, manter-se como mediador é estratégico: é a tentativa de garantir que a transição venezuelana não se transforme em uma anexação administrativa pelos Estados Unidos, preservando a pouca influência que resta ao multilateralismo na América Latina.

O plano de Marco Rubio representa o fim da soberania venezuelana?

O plano de três fases detalhado pelo Secretário de Estado Marco Rubio é, na prática, um manual de ocupação institucional. Ao prever a “estabilização”, a “reconstrução da sociedade civil” e a “transição política”, os EUA deixam claro que não pretendem apenas remover Maduro, mas redesenhar o DNA do Estado venezuelano. A libertação dos espanhóis Andrés Martínez e José María Basoa é apenas o primeiro movimento de um processo onde o destino da Venezuela será decidido em escritórios de Nova York e Washington, enquanto o país tenta entender como transitar entre um regime contestado e uma tutela estrangeira que Donald Trump promete ser “por muito mais tempo”.

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