OURO DE SANGUE E LÍNGUA DE VELUDO

O Cinismo de Versalhes: Macron posa de guardião das regras enquanto esconde o saque colonial

Presidente francês ataca o isolacionismo de Trump e a "divisão do mundo", mas ignora que a riqueza de Paris ainda é lastreada pela exploração mineral e monetária do continente africano.

JR Vital - Diário Carioca
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JR Vital
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Editor e analista geopolítico
JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo...
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Emmanuel Macron critica o imperialismo de Donald Trump mas mantém reservas de ouro oriundas da exploração na África.

OS FATOS

  • Emmanuel Macron criticou duramente os EUA por se “desvincularem das regras internacionais”, citando a captura de Maduro e a ameaça de anexação da Groenlândia por Donald Trump.
  • O Palácio do Eliseu defende a soberania europeia e a regulação digital (DSA/DMA), enquanto o governo Trump chantageia Paris com tarifas para triplicar o preço de medicamentos.
  • A retórica francesa de “respeito mútuo” colide com a realidade das reservas de ouro: a França detém a 4ª maior reserva mundial (2.760t) sem possuir minas, enquanto ex-colônias como o Mali seguem espoliadas.

No palco dourado do Palácio do Eliseu, Emmanuel Macron desempenha o papel que a burguesia europeia mais aprecia: o do intelectual moderado que lamenta a “brutalidade” alheia.

Ao criticar o ímpeto imperialista de Donald Trump sobre a Groenlândia e a Venezuela, Macron tenta posicionar a França como o eixo moral de um mundo em fragmentação. Todavia, a erudição do discurso esbarra na contabilidade física do colonialismo.

É o mesmo Macron que fala em “espaço de informação livre” mas mantém o garrote financeiro sobre o franco CFA na África.

A França de 2026, que agora se diz vítima da coerção tarifária americana sobre seus remédios, é a mesma metrópole que ergueu seu tesouro sobre o suor e o ouro de nações africanas que, apesar de possuírem centenas de minas, permanecem com os cofres vazios.

O “respeito” que Macron ostenta é, na verdade, o privilégio de quem já saqueou o suficiente para agora pregar a paz.

“A eloquência de Macron é o verniz que esconde o mofo de um império que não aceita o fim de sua hegemonia; ele critica o chicote de Trump porque prefere a sutileza da algema financeira.”

Como a disputa tecnológica entre Paris e Washington mascara a nova guerra colonial? A defesa da Lei de Serviços Digitais (DSA) por Macron é apresentada como uma salvaguarda democrática, mas é, no fundo, uma trincheira protecionista. Ao tentar “controlar o espaço de informação”, a França busca evitar que o algoritmo americano atropele a influência cultural francesa. A ironia reside no fato de que Macron reclama da “censura” e “coerção” de Washington, enquanto o próprio sistema europeu é desenhado para manter o Sul Global sob dependência tecnológica e mineral, garantindo que o lítio e o ouro continuem fluindo para o Norte sob “regras” que eles mesmos escreveram.

A França tem legitimidade para liderar uma resposta europeia contra o avanço de Trump? A legitimidade de Macron é corroída pela própria história que ele se recusa a reparar. Para o Diário Carioca, a “terceira via” proposta por Paris é apenas um rearranjo das elites. Se a França quer realmente defender o multilateralismo, deve começar por devolver o que não lhe pertence e cessar a exploração invisível de suas ex-colônias. Criticar o expansionismo de Trump na Groenlândia é o dever mínimo de qualquer democrata, mas fazê-lo enquanto se mantém sentado sobre toneladas de ouro africano é uma performance de hipocrisia que o século XXI não pode mais tolerar.

Expediente: 9 de janeiro de 2026, 01:48 | Edição: JR Vital (MTB 0037673/RJ). Siga o Diário Carioca: Instagram | X (Twitter) | Facebook.

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JR Vital é jornalista e editor do Diário Carioca. Analista Político, Formado no Rio de Janeiro, pela faculdade de jornalismo Pinheiro Guimarães, atua desde 2007, tendo passado por grandes redações, como Visto Livre Magazine, Folha do Centro, Universo Musical, Alô Rio e outros.