OURO DE SANGUE E LÍNGUA DE VELUDO

O Cinismo de Versalhes: Macron posa de guardião das regras enquanto esconde o saque colonial

Presidente francês ataca o isolacionismo de Trump e a "divisão do mundo", mas ignora que a riqueza de Paris ainda é lastreada pela exploração mineral e monetária do continente africano.
Emmanuel Macron critica o imperialismo de Donald Trump mas mantém reservas de ouro oriundas da exploração na África.
Emmanuel Macron critica o imperialismo de Donald Trump mas mantém reservas de ouro oriundas da exploração na África.
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

OS FATOS

  • Emmanuel Macron criticou duramente os EUA por se “desvincularem das regras internacionais”, citando a captura de Maduro e a ameaça de anexação da Groenlândia por Donald Trump.
  • O Palácio do Eliseu defende a soberania europeia e a regulação digital (DSA/DMA), enquanto o governo Trump chantageia Paris com tarifas para triplicar o preço de medicamentos.
  • A retórica francesa de “respeito mútuo” colide com a realidade das reservas de ouro: a França detém a 4ª maior reserva mundial (2.760t) sem possuir minas, enquanto ex-colônias como o Mali seguem espoliadas.

No palco dourado do Palácio do Eliseu, Emmanuel Macron desempenha o papel que a burguesia europeia mais aprecia: o do intelectual moderado que lamenta a “brutalidade” alheia.

Ao criticar o ímpeto imperialista de Donald Trump sobre a Groenlândia e a Venezuela, Macron tenta posicionar a França como o eixo moral de um mundo em fragmentação. Todavia, a erudição do discurso esbarra na contabilidade física do colonialismo.

É o mesmo Macron que fala em “espaço de informação livre” mas mantém o garrote financeiro sobre o franco CFA na África.

A França de 2026, que agora se diz vítima da coerção tarifária americana sobre seus remédios, é a mesma metrópole que ergueu seu tesouro sobre o suor e o ouro de nações africanas que, apesar de possuírem centenas de minas, permanecem com os cofres vazios.

O “respeito” que Macron ostenta é, na verdade, o privilégio de quem já saqueou o suficiente para agora pregar a paz.

“A eloquência de Macron é o verniz que esconde o mofo de um império que não aceita o fim de sua hegemonia; ele critica o chicote de Trump porque prefere a sutileza da algema financeira.”

Como a disputa tecnológica entre Paris e Washington mascara a nova guerra colonial? A defesa da Lei de Serviços Digitais (DSA) por Macron é apresentada como uma salvaguarda democrática, mas é, no fundo, uma trincheira protecionista. Ao tentar “controlar o espaço de informação”, a França busca evitar que o algoritmo americano atropele a influência cultural francesa. A ironia reside no fato de que Macron reclama da “censura” e “coerção” de Washington, enquanto o próprio sistema europeu é desenhado para manter o Sul Global sob dependência tecnológica e mineral, garantindo que o lítio e o ouro continuem fluindo para o Norte sob “regras” que eles mesmos escreveram.

A França tem legitimidade para liderar uma resposta europeia contra o avanço de Trump? A legitimidade de Macron é corroída pela própria história que ele se recusa a reparar. Para o Diário Carioca, a “terceira via” proposta por Paris é apenas um rearranjo das elites. Se a França quer realmente defender o multilateralismo, deve começar por devolver o que não lhe pertence e cessar a exploração invisível de suas ex-colônias. Criticar o expansionismo de Trump na Groenlândia é o dever mínimo de qualquer democrata, mas fazê-lo enquanto se mantém sentado sobre toneladas de ouro africano é uma performance de hipocrisia que o século XXI não pode mais tolerar.

Expediente: 9 de janeiro de 2026, 01:48 | Edição: JR Vital (MTB 0037673/RJ). Siga o Diário Carioca: Instagram | X (Twitter) | Facebook.

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