OS FATOS:
- A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026 mimetiza, cronológica e taticamente, a invasão do Panamá em 1989, que depôs o general Manuel Noriega.
- A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA formaliza o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, tratando o uso da força como gestão de crises domésticas americanas.
- A criminalização de Maduro como “narcoterrorista” permite a Washington contornar a Carta da ONU ao negar a existência de um governo soberano na Venezuela.
O Script Imperial: Do Canal ao Petróleo
A história não apenas se repete; ela é coreografada. O sequestro de Nicolás Maduro pelas forças especiais norte-americanas é o clímax de uma dramaturgia imperial que substitui o direito internacional pela “guerra às drogas”. Ao transformar um chefe de Estado em um criminoso comum, os Estados Unidos operam uma mágica jurídica: a invasão desaparece, dando lugar a uma “ação policial” de alta magnitude. Esse enquadramento esvazia a soberania venezuelana antes mesmo do primeiro disparo, permitindo que a agressão externa seja vendida ao público americano como uma defesa da ordem nas ruas de Miami ou Nova York.
O paralelo com o Panamá de 1989 é inescapável. Se naquela época o alvo era o controle do Canal, hoje o prêmio é a infraestrutura da PDVSA. Em ambos os casos, a vilanização do líder serve como biombo moral para o controle de recursos estratégicos nacionalizados nos anos 1970.
A Doutrina Monroe 2.0 e o “America First”
O “Corolário Trump” representa uma inflexão agressiva na projeção de poder no Hemisfério Ocidental. Não se trata mais apenas de conter influências externas, mas de gerir a América Latina como uma zona de exclusividade funcional. O slogan “drill, baby, drill” encontra na bacia do Orinoco seu laboratório de reindustrialização forçada. Ao recusar o reconhecimento de lideranças democráticas da oposição venezuelana, como María Corina Machado, Trump sinaliza que o objetivo não é a democracia, mas a obediência e a extração.
| Atributo da Intervenção | Caso Panamá (1989) | Caso Venezuela (2026) |
| Justificativa Oficial | Narcotráfico e Democracia | Narcoterrorismo e Segurança Interna |
| Recurso Estratégico | Canal do Panamá | Petróleo e Hidrocarbonetos |
| Lógica Política | Restauração de aliados (Endara) | Gestão direta e transição pactuada |
| Alvo Geopolítico | Influência Soviética (final) | Expansão Comercial Chinesa |
O Espetáculo Disciplinador e a Mensagem à Pequim
A exibição de Maduro algemado não é apenas um ato processual; é uma performance disciplinadora. A mensagem é dirigida a dois públicos: aos vizinhos sul-americanos, para que compreendam o custo da dissidência, e à China, para que entenda que a ” Iniciativa Cinturão e Rota” encontrou seu limite no Caribe. O Panamá, ao se retirar de acordos com Pequim sob pressão recente, foi o prenúncio desta nova era onde a soberania é relativa e o “quintal” está sendo cercado novamente. Enquanto Pequim oferece infraestrutura com retórica de cooperação, Washington reafirma sua presença com a linguagem dos mísseis e das algemas.
Qual a principal diferença jurídica entre uma ‘guerra’ e uma ‘operação policial extraterritorial’ na retórica dos EUA?
A distinção reside no reconhecimento da soberania. Ao classificar a ação como “policial” contra um “criminoso”, os EUA negam a existência de um Estado soberano interlocutor, o que supostamente os desobriga de seguir os protocolos de guerra da Convenção de Genebra e as restrições de agressão da Carta da ONU. Trata-se de uma manobra para transformar um conflito internacional em uma questão de jurisdição doméstica norte-americana.

