OS FATOS:
- O Brasil classificou a operação militar dos EUA na Venezuela como uma “afronta gravíssima à soberania” durante reunião de emergência no Conselho de Segurança da ONU.
- A reversão de tarifas comerciais impostas por Trump ao café e à carne brasileira em 2025 atua como um freio pragmático contra uma oposição diplomática mais agressiva.
- A Casa Branca ignora a oposição democrática de Edmundo González e sinaliza uma transição pactuada com setores do próprio chavismo, visando controle militar imediato.
O Escudo Quebrado do Multilateralismo
A deposição de um chefe de Estado em solo sul-americano pelas mãos de Washington representa não apenas um choque tático, mas a derrocada da arquitetura multilateral que o Brasil ajudou a construir. Para o Itamaraty, a defesa da soberania não é uma questão de alinhamento ideológico com o Palácio de Miraflores — figura já isolada e politicamente tóxica —, mas uma estratégia de sobrevivência. O uso do Direito Internacional como “poder estrutural dos fracos”, conforme teorizado por Susan Strange, torna-se o último refúgio de uma nação que carece de ogivas, mas sobra em princípios.
A fragilidade da CELAC e a paralisia da OEA deixam Brasília em um isolamento estratégico. Diferente da década de 2000, onde a coordenação regional permitia contrapontos ao hegemon do Norte, o cenário atual é de atomização. O bombardeio em Caracas normaliza o intervencionismo, transformando a América Latina em um laboratório para a “Doutrina Trump” de influência direta e transações de força bruta.
O Cálculo Doméstico e a Economia do Silêncio
Internamente, o governo Lula opera sob o fio da navalha. A manutenção de canais abertos com o governo Trump, após o fim da guerra tarifária, é um ativo que o Planalto não deseja queimar. Existe a clara percepção de que uma liderança ostensiva contra os EUA forneceria combustível para a oposição conservadora brasileira, que prontamente rotularia qualquer defesa do Direito Internacional como “conivência com o autoritarismo chavista”.
| Variável de Risco | Impacto na Política Externa | Consequência Interna |
| Confronto com Trump | Retaliação comercial e novas tarifas | Crítica da base empresarial e agronegócio |
| Omissão Diplomática | Perda de relevância regional e prestígio | Questionamento da base progressista |
| Apoio ao Multilateralismo | Proteção normativa contra futuras invasões | Acusações de “conivência com ditaduras” |
A Transição Por Trás Das Cortinas
O desprezo de Trump pela oposição venezuelana de centro-direita — incluindo Edmundo González e María Corina Machado — revela a natureza puramente pragmática da invasão. A CIA e o Departamento de Estado parecem preferir a estabilidade de uma transição negociada com figuras do antigo regime, como Delcy Rodríguez, em vez de apostar em uma liderança democrática que poderia não controlar as armas. Para o Brasil, este cenário é o pior dos mundos: a consolidação de um protetorado militarizado na fronteira norte, gerido por Washington através de remanescentes do aparato chavista.
O caminho que resta a Brasília é a “diplomacia de contenção de danos”. O engajamento bilateral discreto torna-se mais promissor do que o grito multilateral no vácuo. Trata-se de uma Realpolitik amarga, onde a defesa da democracia é atropelada pela logística do petróleo e pela geografia do medo.
Por que o Brasil evita liderar uma resposta multilateral mais contundente contra os EUA?
A cautela brasileira deve-se a um triplo impasse: a necessidade de preservar a trégua comercial com Trump (fim das tarifas sobre café e carne), a fragmentação da liderança regional na América Latina e o risco político interno, dado o ano eleitoral e a maioria conservadora no Congresso Nacional, que exploraria qualquer defesa da Venezuela como apoio ideológico ao regime de Maduro.

