Lula confirma viagem a Washington e aposta no diálogo direto com Trump

Ao anunciar encontro com o presidente dos Estados Unidos, Lula sinaliza a retomada da normalidade diplomática, defende o multilateralismo e reafirma limites claros à intervenção externa na América do Sul.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
Foto: Ricardo Stuckert/PR
Por Vanessa Neves Vanessa Neves — Analista Política
Vanessa Neves
Vanessa Neves Analista Política
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Há momentos em que a política externa deixa de ser um jogo de comunicados e passa a exigir presença física.

Ao confirmar que viajará a Washington no início de março para um encontro com Donald Trump, Luiz Inácio Lula da Silva escolhe o caminho clássico da diplomacia: olho no olho, mesa posta e palavra empenhada.

Em tempos de relações internacionais cada vez mais mediadas por redes sociais e bravatas públicas, a decisão carrega um significado que vai além do protocolo.

Segundo Lula, a visita terá como objetivo uma conversa direta com o presidente norte-americano e a retomada da “normalidade” nas relações bilaterais.

A palavra não é casual. Normalidade, aqui, significa previsibilidade — um valor subestimado num mundo em que oscilações políticas produzem efeitos imediatos sobre comércio, investimentos e estabilidade regional.

Diálogo como método, não como concessão

Ao defender o fortalecimento do diálogo e do multilateralismo, Lula reafirma uma tradição da política externa brasileira construída desde o pós-guerra: negociar sem subserviência, cooperar sem abdicar de autonomia. Para o trabalhador brasileiro, esse tipo de diplomacia raramente aparece no noticiário econômico, mas se traduz em efeitos concretos — acesso a mercados, acordos tecnológicos, empregos preservados.

A cooperação econômica entre Brasil e Estados Unidos, citada pelo presidente, não é um slogan vazio. Trata-se de uma relação assimétrica, é verdade, mas ainda estratégica. Lula sabe que reequilibrar essa equação exige menos discursos inflamados e mais engenharia política silenciosa. Washington continua sendo um polo decisório central do capitalismo global, e ignorá-lo não é sinal de soberania, mas de isolamento.

Venezuela: o limite ético da conversa

No mesmo anúncio em que confirmou a viagem, Lula voltou a tocar num ponto sensível da agenda hemisférica: a crise venezuelana. Reiterou que a solução deve partir dos próprios venezuelanos e sinalizou que pretende retomar conversas com Delcy Rodríguez, figura central do governo interino em Caracas. A mensagem é coerente com a posição já expressa pelo Planalto: apoio internacional não pode se confundir com tutela política.

Ao levar esse tema implicitamente para a mesa com Trump, Lula antecipa um dos principais pontos de fricção entre Brasília e Washington. Para os Estados Unidos, a Venezuela costuma ser tratada como problema de segurança e influência. Para o Brasil, é uma questão regional, social e histórica — cujas consequências recaem, antes de tudo, sobre trabalhadores, migrantes e fronteiras vivas.

Classe, democracia e pragmatismo

A confirmação da viagem também fala à política interna. Ao se posicionar como interlocutor legítimo entre o Sul Global e o centro do poder, Lula reforça uma imagem construída ao longo de décadas: a de um líder que entende que democracia não se sustenta apenas com votos, mas com relações internacionais minimamente estáveis. Para as classes populares, esse pragmatismo raramente é celebrado, mas frequentemente é o que evita choques econômicos mais duros.

Não se trata de alinhamento automático, tampouco de confronto performático. Trata-se de reconhecer que, no tabuleiro global, a soberania se exerce com presença, não com ausência. Ir a Washington, neste contexto, é menos um gesto de deferência e mais uma afirmação de maturidade política.

No início de março, quando Lula atravessar as portas da Casa Branca, o encontro com Trump será lido por analistas como mais um capítulo da diplomacia internacional. Para além disso, porém, será um teste silencioso: até que ponto ainda é possível restaurar a normalidade num mundo que parece lucrar com o conflito permanente?

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