Brasília, 2 de julho de 2025 – Um retrato do abismo entre o Congresso Nacional e o trabalhador brasileiro. Pesquisa divulgada nesta quarta-feira (2) pela Quaest revela que 70% dos deputados federais são contra o fim da exaustiva jornada de trabalho 6×1 — seis dias seguidos de serviço com apenas um de descanso. A medida, proposta pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), visa limitar a jornada semanal a 36 horas distribuídas em quatro dias, buscando humanizar as condições de trabalho.
O resultado expõe a lógica cruel e elitista que guia o Legislativo brasileiro, que protege privilégios e empurra o povo para a sobrecarga. Enquanto barram o descanso digno, os mesmos parlamentares apoiam benefícios fiscais para setores privilegiados: 88% defendem o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda, medida que, embora necessária para aliviar a classe média, é usada como escudo retórico para evitar mudanças estruturais no sistema tributário.
Uma maioria contra quem trabalha
A resistência ao fim da jornada 6×1 foi praticamente unânime entre a oposição ao governo: 92% dos opositores rejeitam a proposta. Mas o apoio à manutenção da sobrecarga laboral também é majoritário entre os ditos independentes (74%) e até entre governistas (55%), o que revela um pacto silencioso entre bancadas conservadoras, ruralistas, empresariais e fisiológicas contra os direitos sociais.
A proposta de Erika Hilton, ignorada por ampla maioria, busca adequar a legislação brasileira às experiências internacionais que já testam jornadas mais curtas, com ganhos em produtividade, saúde mental e qualidade de vida. Mas o Congresso prefere proteger um sistema arcaico que espreme o trabalhador e alimenta a cultura do esgotamento físico.
Hipocrisia fiscal e manutenção de privilégios
O levantamento também revela um detalhe estarrecedor: 53% dos deputados são contra acabar com os supersalários no funcionalismo público. Mesmo com teto definido em R$ 46.366, vencimentos de servidores em setores do Judiciário e Legislativo frequentemente ultrapassam esse valor, disfarçados sob o manto de “benefícios” e penduricalhos legais.
Enquanto isso, propostas como a ampliação da isenção do IR são usadas para capitalizar politicamente, mas não tocam nos interesses da elite financeira, nem reduzem a brutal desigualdade no sistema tributário. Em vez de taxar grandes fortunas, lucros e dividendos, os parlamentares posam como defensores do povo ao apoiar isenção para renda mais baixa — sem encarar as verdadeiras distorções do sistema.
Avaliação do governo Lula e clima hostil no Congresso
O levantamento também mostra que 46% dos deputados avaliam negativamente o governo Lula, o pior índice desde o início do terceiro mandato. A hostilidade ao Executivo é alimentada por uma bancada majoritariamente conservadora, com interesses alinhados ao mercado financeiro, ao agronegócio e às oligarquias regionais.
A relação com o Congresso é vista como negativa por 51% dos deputados, o que evidencia um ambiente de sabotagem institucionalizada, onde projetos que beneficiariam a maioria da população enfrentam resistência sistemática — não por mérito, mas por cálculo eleitoral.
Congresso que não lê, mas legisla contra
A mesma Câmara que resiste ao debate sobre jornada digna também rejeita projetos como o PL que proíbe supersalários (53% contra) e apoia em massa (83%) a exploração de petróleo na Amazônia, uma pauta de alto impacto ambiental que compromete gerações futuras.
São decisões tomadas por um Parlamento desconectado da realidade de quem depende de transporte público, filas no SUS, salário mínimo e jornadas que esmagam corpo e mente. Ao rejeitar o fim da 6×1, os deputados deixam claro: não falam em nome do povo — falam em nome de quem lucra com o cansaço alheio.
O Carioca Esclarece
Escala 6×1 é o regime de trabalho que prevê seis dias de atividade seguidos por apenas um de descanso. Embora legal, é alvo de críticas por impactar negativamente a saúde e o bem-estar do trabalhador.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. O que é a proposta do fim da escala 6×1?
É um projeto que visa limitar a jornada semanal a 36 horas em quatro dias úteis, eliminando o regime de seis dias de trabalho com apenas um de descanso.
2. Por que os deputados rejeitam a proposta?
A maioria dos parlamentares representa interesses empresariais que se beneficiam da sobrecarga de trabalho, além de manterem uma lógica de austeridade contra os direitos trabalhistas.
3. O que são supersalários?
Salários acima do teto constitucional (R$ 46.366) pagos no serviço público por meio de gratificações e penduricalhos. A proposta do governo é eliminá-los, mas 53% dos deputados são contra.
