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Lula comenta ‘Bolsotaxa’ de Trump e descarta “humilhação” em negociações

Presidente brasileiro reage à sobretaxa imposta pelos EUA e diz que buscará resposta conjunta com países do Brics
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista no Palácio da Alvorada. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista no Palácio da Alvorada. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Brasília, 6 de agosto de 2025 — Em reação direta à decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar tarifas extras sobre produtos brasileiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não aceitará pressões unilaterais e só dialogará com Washington se houver disposição real por parte do governo norte-americano. A declaração foi dada em entrevista à agência Reuters, no mesmo dia em que as sanções comerciais começaram a valer.

“Não vou me humilhar para conversar com o Trump. Quando sentir que há espaço para diálogo, eu ligo. Mas hoje, não há”, afirmou Lula, em resposta à medida que impõe sobretaxa de 50% a 35,9% das exportações brasileiras para os EUA. Produtos como carne bovina e café estão entre os mais afetados, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

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Medida é vista como retaliação política

De acordo com Lula, a imposição das tarifas teve motivação política, em especial após declarações de Trump que associaram a taxação ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O republicano classificou o julgamento como “caça às bruxas”, em referência ao aliado de extrema-direita.

“É uma interferência inaceitável. Trump quis ditar regras a um país soberano”, afirmou Lula. Para o presidente brasileiro, a atitude do governo dos EUA rompe os protocolos de diálogo entre chefes de Estado e ignora os canais diplomáticos adequados.

O Palácio do Planalto acionou nesta quarta-feira (6) a Organização Mundial do Comércio (OMC) para solicitar consultas formais com os Estados Unidos. A medida é o primeiro passo para abrir uma disputa comercial na instituição, embora o governo reconheça que o atual enfraquecimento da OMC pode limitar os efeitos práticos da ação.


Brics será usado como plataforma de resposta

Lula também anunciou que levará o tema às próximas reuniões do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ao qual agora se somam outros países em expansão. O objetivo, segundo o presidente, é construir uma resposta multilateral e coordenada contra as sanções unilaterais dos EUA.

“O Brics tem dez países no G20. Vamos discutir o impacto dessas tarifas e agir juntos, se for o caso”, afirmou Lula. Ele disse que já iniciou contatos diplomáticos com parceiros do bloco, muitos dos quais também enfrentam pressões semelhantes de Trump.

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Sem retaliação tarifária, mas com postura firme

Mesmo diante da ofensiva norte-americana, o presidente brasileiro descartou retaliar os EUA com medidas semelhantes. Segundo Lula, impor tarifas sobre produtos americanos poderia elevar a inflação interna e prejudicar consumidores brasileiros.

“Não quero ter o mesmo comportamento dele. Quero mostrar que, quando um não quer, dois não brigam. Eu não quero brigar com os Estados Unidos”, declarou o presidente. No entanto, ele reiterou que o Brasil manterá sua autonomia, inclusive na regulação de empresas de tecnologia norte-americanas, citando o direito soberano de estabelecer regras próprias para plataformas digitais e redes sociais.

As declarações reforçam o tom crítico da diplomacia brasileira diante de uma nova fase de tensões comerciais e ideológicas entre Brasília e Washington. O cenário se desenha como um dos maiores testes para a política externa do terceiro mandato de Lula, que tenta equilibrar pragmatismo econômico com afirmações de soberania nacional.

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