O caso Adélio Bispo, que há quase oito anos atua como uma ferida aberta no tecido político brasileiro, ganha contornos de tragédia psiquiátrica definitiva.
O novo laudo encaminhado à 5ª Vara Criminal de Campo Grande não deixa margem para o otimismo clínico: o homem que empunhou a faca em Juiz de Fora está agora mergulhado em um abismo de alucinações e distanciamento da realidade.
O diagnóstico evoluiu da dúvida para o veredito da ciência: esquizofrenia paranoide.
A deterioração do quadro
O documento é um retrato da decadência. O que em 2019 foi classificado como transtorno delirante persistente — uma fixação em ideias de perseguição política — degenerou para um comprometimento global das funções mentais.
Os peritos relatam que Adélio não apenas recusa o tratamento medicamentoso, como também vê sua percepção do mundo ser consumida por sombras que o sistema de custódia não consegue dissipar.
A esquizofrenia paranoide, em sua essência, é a falha catastrófica da razão em organizar a experiência humana.
O cárcere da inimputabilidade
A questão que se impõe agora não é mais de ordem penal, mas de segurança pública e dignidade humana.
Considerado inimputável, Adélio vive em um limbo jurídico: não pode ser condenado, mas sua periculosidade, agora agravada pelas alucinações, impede que retorne ao convívio social.
A recomendação para internação em hospital psiquiátrico de custódia é o reconhecimento de que a Penitenciária Federal de Campo Grande, embora segura, é incapaz de oferecer o tratamento que a patologia exige.
A instrumentalização do delírio
Enquanto a medicina diagnostica a falência da mente, a política brasileira continua a instrumentalizar o atentado de 2018.
O agravamento do estado de Adélio serve como um lembrete incômodo de que, por trás das teorias conspiratórias que ambos os lados tentam costurar, existe uma realidade biológica e psíquica inegável.
Adélio Bispo é, ao mesmo tempo, o autor de um ato que mudou o destino de uma nação e uma vítima do seu próprio isolamento mental.
A justiça, agora, enfrenta o desafio de custodiar não apenas um homem, mas o fantasma de uma mente que já não pertence mais a este mundo.
