A física e a meteorologia parecem ter sido as primeiras vítimas do ato convocado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) neste domingo (25), em Brasília. Em um espetáculo de descolamento da realidade, manifestantes que pediam anistia para os golpistas do 8 de janeiro recorreram a teorias da conspiração dignas de ficção científica para justificar o temporal que castigou a capital federal.
Segundo uma bolsonarista entrevistada no local, a chuva não foi obra da natureza, mas um ataque coordenado via “Antenas HAARP” para esvaziar a mobilização.
O termo, que remete ao High Frequency Active Auroral Research Program, um projeto científico real sediado no Alasca, foi ressignificado pelo imaginário da extrema-direita como uma arma geofísica capaz de manipular o clima ao bel-prazer da “esquerda”. Para o trabalhador que enfrenta as intempéries reais das mudanças climáticas, ouvir que a chuva é uma “armação” enquanto o mundo registra recordes de temperatura é um exercício de paciência e escárnio pedagógico. A manifestante chegou a ridicularizar o aquecimento global, ignorando o perigo iminente sob o qual se encontrava.
A ironia, no entanto, foi trágica. Enquanto a militância se ocupava em denunciar antenas invisíveis no Alasca, a natureza manifestou-se de forma letal: um raio atingiu o grupo na Praça do Cruzeiro. O balanço do Corpo de Bombeiros é um choque de realidade: 89 pessoas atendidas e 47 hospitalizadas. O episódio expõe a face mais perigosa do negacionismo — quando a crença em conspirações impede a precaução básica contra fenômenos naturais, transformando um ato político em um cenário de emergência médica. O “povo não é mais besta”, disse a entrevistada, enquanto o céu, indiferente à retórica partidária, impunha sua força física sobre o Planalto.
