O raio caiu, mas a narrativa já estava pronta. Em Brasília, onde símbolos são erguidos para parecer eternos, a descarga elétrica que feriu 72 pessoas durante um ato político foi rapidamente rebatizada de “incidente natural”.
A expressão, aparentemente neutra, cumpre uma função clássica no repertório retórico do poder: retirar o evento do campo da responsabilidade humana e lançá-lo no território confortável do imponderável.
Nikolas Ferreira, deputado federal pelo PL de Minas Gerais, falou aos jornalistas no Hospital de Base como quem administra danos de imagem.
Disse não se considerar responsável, negou falhas de organização e invocou fatores “fora do controle” dos organizadores.
A cena é conhecida: o representante eleito comparece ao local do sofrimento, mas leva consigo uma blindagem discursiva que o preserva de qualquer vínculo causal com o ocorrido.
A natureza como biombo político
Atribuir tragédias a fenômenos naturais não é um gesto inocente. No Brasil, essa estratégia atravessa séculos, do deslizamento “inevitável” em áreas precarizadas ao apagão “imprevisível” de infraestruturas abandonadas. O raio, nesse caso, funciona como biombo. Ele cobre a pergunta essencial: quais medidas de segurança foram adotadas? Houve protocolos para eventos de massa sob risco climático? Quem decidiu seguir adiante?
Quando o discurso oficial afirma que “ninguém poderia prever”, ele não está apenas descrevendo o clima. Está, sobretudo, reorganizando a hierarquia da culpa. A política se absolve, e a natureza é convocada como ré silenciosa.
Corpos feridos, responsabilidades diluídas
Setenta e duas pessoas feridas não são um detalhe estatístico. São trabalhadores, estudantes, aposentados — gente que respondeu a um chamado político e pagou com o próprio corpo. O parlamentar afirma que a maioria está fora de perigo, informação relevante, mas insuficiente. A ausência de mortes não transforma a negligência em virtude, nem o improviso em heroísmo.
Há uma assimetria estrutural nesse tipo de episódio: quem convoca o ato detém capital simbólico e jurídico; quem comparece assume riscos concretos. Quando algo dá errado, a linguagem do poder age rápido para restaurar a ordem moral, convertendo decisões humanas em fatalidades atmosféricas.
O manual da irresponsabilidade elegante
O que se vê não é um erro isolado, mas um método. A irresponsabilidade elegante — aquela que se apresenta com tom sereno, vocabulário técnico e aparência de racionalidade — tornou-se prática corrente. Não há pedido de desculpas, apenas explicações. Não há autocrítica, apenas contextualização. O escárnio está justamente aí: na tentativa de normalizar o inaceitável por meio da semântica.
O jornalismo não pode aceitar esse deslocamento sem resistência. Nomear responsabilidades é parte do contrato social da imprensa com o público. Quando a política se esconde atrás das nuvens, cabe ao repórter lembrar que atos políticos não são meteorologia. São escolhas.

