O cenário em Iracema, no interior de Roraima, é a materialização estética da pilhagem que define a política regional sob a égide do bolsonarismo. A indicação de R$ 13 milhões em “emendas pix” por Jhonatan de Jesus — hoje, ironicamente, ministro do Tribunal de Contas da União — resultou em uma arquitetura do vazio: das 300 casas prometidas, apenas uma sobrevive como um monumento à ineficiência e ao escárnio.
É a síntese de um projeto de poder que utiliza o erário para consolidar currais eleitorais enquanto flerta com o garimpo ilegal e o sufocamento das populações indígenas. Como ensinou Graciliano Ramos em sua crônica sobre a miséria do interior, a seca de espírito da elite política é o que realmente mata a esperança da terra.
- Jhonatan de Jesus e o senador Mecias de Jesus destinaram R$ 13 milhões para obras em Iracema, utilizando o mecanismo opaco das emendas pix, que dificultam a fiscalização imediata.
- Passado mais de um ano da promessa, o canteiro de obras é um terreno abandonado tomado por mato e carcaças de animais, com apenas uma casa-modelo deteriorada.
- O ex-prefeito Jairo Ribeiro, aliado da família Jesus, é alvo da Polícia Federal por suspeitas de fraude e desvio de recursos, enquanto o ministro do TCU lava as mãos sobre a execução do dinheiro que ele próprio enviou.
A engenharia da pilhagem no coração da Amazônia
A desculpa protocolar de que o papel do parlamentar termina no envio do recurso é a confissão de uma corrupção legalizada que assola o orçamento secreto e suas derivações. Ao enviar milhões sem o devido rigor técnico e fiscalizatório, o hoje ministro do TCU demonstra que a raposa conhece bem os atalhos para invadir o galinheiro. Em Iracema, a “casa-modelo” não é um lar; é uma máscara para desvios que a Polícia Federal agora tenta decifrar. O silêncio cúmplice diante da ausência de 299 casas é o mesmo silêncio de quem coloca obstáculos à demarcação de terras indígenas para favorecer o extrativismo predatório.
Aritmética do abandono em Roraima
| Recurso / Objeto | Promessa bolsonarista | Realidade de Iracema |
| Verba total enviada | R$ 13 milhões (Emendas Pix) | Terreno baldio e carcaças |
| Unidades habitacionais | 300 casas populares | 1 casa modelo vazia |
| Situação do canteiro | “Compromisso de gestão” | Mato alto e erosão |
| Destino do mentor | TCU (Fiscal da União) | Aliado do garimpo em RR |
O fiscal de contas pode ser o próprio beneficiário da cegueira?
A ocupação de uma cadeira no Tribunal de Contas da União por um expoente desse sistema é o triunfo do cinismo sobre a República. Enquanto Jhonatan de Jesus julga as contas alheias em Brasília, o povo de Iracema observa a única casa de R$ 13 milhões apodrecer sob o sol de Roraima. A transparência exigida pelo STF não é apenas um capricho jurídico, mas a última barreira contra a transformação do Brasil em um grande latifúndio de sombras e emendas sem rastro.

