A CPMI do INSS não está diante de uma falha administrativa, mas de uma arquitetura de exploração que profana o ambiente sagrado para alimentar o apetite de bancos e intermediários. O esquema, que Silas Malafaia tentou desviar sob o manto da “perseguição à igreja”, revela uma engrenagem fria e calculista. O templo deixa de ser um local de acolhimento para se tornar o primeiro estágio de uma linha de montagem de dívidas. A estratégia é baseada no sequestro da confiança: o idoso, vulnerável e muitas vezes solitário, não entrega seus dados a um estranho, mas à autoridade espiritual em quem deposita sua fé.
A investigação documental da CPMI, liderada pela senadora Damares Alves, expõe que a “baixa de resistência” do fiel é o ativo mais valioso para o mercado financeiro do crime. Pastores e obreiros, agindo como corretores de luxo da miséria, utilizam o aconselhamento espiritual para coletar CPFs e números de benefícios. Com essas informações, o núcleo religioso alimenta uma rede de correspondentes bancários que forja autorizações e ativa empréstimos consignados sem qualquer consentimento real. É a transformação da oração em contrato, onde a “benção” chega em forma de desconto compulsório no contracheque de quem mal tem para o pão.
A fase final desse ecossistema de pilhagem é o repasse das comissões. Instituições financeiras, cientes da origem espúria desses contratos, liberam valores que são repartidos entre os operadores e as cúpulas dos templos envolvidos. A pressão para abafar o caso, sob o pretexto de não “decepcionar os fiéis”, é apenas o último ato da farsa para proteger o fluxo de caixa de quem trocou o Evangelho pela planilha de metas de agiotagem institucionalizada.
O altar serve a Deus ou ao Banco Master?
Será que o silêncio de lideranças como Malafaia é zelo pela igreja ou apenas pavor de que o véu do templo se rasgue e revele a máquina de moer pobres escondida no fundo do batistério? A ironia do “Malafaia que duvidava” é o retrato de uma elite religiosa que se sente acima da lei e intocável pela verdade. Quando o púlpito se torna extensão de uma financeira, a religião vira mercadoria e o fiel vira produto. É justo que a esperança de uma vida inteira de trabalho seja leiloada entre glórias e aleluias em troca de uma fatia de lucro sobre o consignado?
A verdade é que o Brasil de 2026 assiste à metamorfose do pastor em gestor de ativos podres. Onde termina a caridade e começa a predação financeira? O escândalo do INSS não é um ataque à fé, mas uma defesa dela contra quem a usa como gazua. O “resgate” prometido por esses líderes parece, a cada depoimento na CPMI, o anúncio de um novo sequestro da renda previdenciária. A transparência agora é a única forma de evitar que o dízimo compulsório continue sendo arrancado de quem já não tem nada para dar, senão a dignidade que esses falsos profetas tentam, sem sucesso, negociar.
A Engenharia do Golpe: O Ciclo da Exploração Previdenciária
| Estágio do Golpe | A Cena no Templo | O Mecanismo Técnico | O Destino do Espólio |
| Captação | Acolhimento e coleta de dados sob pretexto espiritual. | Obtenção ilegal de CPF e cartão do INSS. | Inserção no banco de dados da fraude. |
| Execução | Manipulação da confiança e autoridade moral. | Formalização de empréstimos via assinaturas falsas. | Ativação imediata do consignado. |
| Liquidação | Silêncio institucional para evitar “escândalo”. | Desconto direto no benefício e pagamento de taxas. | Repasse de comissões para líderes e bancos. |
A tabela acima disseca o cadáver da ética de quem usa a Bíblia para assinar o cheque da própria ganância.
A análise do Diário Carioca é definitiva: o esquema só funciona porque a fiscalização do Estado parou na porta do templo. Pastores citados na CPMI operaram como “caçadores de cabeças” para o setor financeiro mais agressivo do país. O lucro que sustenta o luxo desses templos não cai do céu; ele é extraído gota a gota do benefício do idoso que, ironicamente, ainda reza pela saúde de seu algoz. Onde está a justiça de quem prega o Reino, mas vive de sugar o suor de quem já não tem mais forças para trabalhar?

