O bolsonarismo descobriu que, na falta de votos, a solução é o teatro. O governador Tarcísio de Freitas e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro iniciaram uma ofensiva coordenada junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar retirar o ex-presidente Jair Bolsonaro da superintendência da Polícia Federal, em Brasília. O argumento é a fragilidade física do “capitão”, que aos 27 anos e 3 meses de condenação por tentativa de golpe, parece agora sofrer com as quinas da cela. O episódio central da narrativa é uma queda sofrida na semana passada, classificada pelos próprios médicos como “traumatismo leve”, mas vendida pela defesa como um prenúncio do fim.
Tarcísio, o tecnocrata que ainda tenta equilibrar o figurino de sucessor com o de fiel escudeiro, pegou o telefone para sondar ao menos quatro ministros da Corte. O alvo é Alexandre de Moraes, o relator que já demonstrou não ter paciência para as investidas contra a tornozeleira eletrônica que Bolsonaro tentou, em vão, depredar. Enquanto isso, Michelle desempenha o papel do “drama particular” em audiência com o decano Gilmar Mendes, tentando encontrar frestas de divergência no plenário para constranger o relator.
A movimentação ocorre em um momento de asfixia política. Com o senador Flávio Bolsonaro já em campanha e a direita fragmentada, o clã tenta humanizar o detento para garantir que ele possa “resgatar o Brasil” — ou ao menos o próprio conforto — do sofá de casa. Para quem pregava que “bandido bom é bandido morto”, a pressa por cuidados médicos hospitalares soa como a mais pura ironia do destino penal.
O martírio clínico serve como anistia por procuração?
Será que a saúde de um condenado vale mais que a saúde das instituições que ele tentou destruir? O uso de laudos sobre hérnias e soluços para evitar o cárcere é a última cartada de quem não tem mais argumentos jurídicos. Tarcísio e Michelle não pedem justiça, pedem privilégio. Por que o tratamento dado a Bolsonaro deveria ser diferente do dispensado a milhares de detentos anônimos com quadros clínicos muito mais graves? O “drama pessoal” de Michelle é a tentativa de transformar uma sentença por golpe de Estado em uma questão humanitária de gabinete.
A verdade é que o bolsonarismo tenta, através de Tarcísio, testar a temperatura do STF para 2026. Se a Corte ceder ao lobby do governador “moderado”, estará assinando um atestado de que a política ainda consegue dobrar a lei. O tombo de Bolsonaro na PF é o fato político que o clã precisava para tentar vender a imagem de um velho debilitado, e não de um conspirador condenado. Onde termina o cuidado médico e começa a manobra para devolver ao líder o palanque que a prisão lhe tirou? O STF decidirá se a cela é pequena demais para o réu ou se a lei é, finalmente, igual para todos.
A Linha do Tempo da Custódia: Entre Crimes e Curativos
| Data | Evento Clínico/Jurídico | Status de Bolsonaro | A Narrativa do Clã |
| Setembro 2025 | Condenação a 27 anos de prisão. | Início da pena. | “Perseguição política”. |
| Novembro 2025 | Tentativa de quebrar a tornozeleira. | Prisão preventiva decretada. | “Desespero do perseguido”. |
| Dezembro 2025 | Cirurgia de hérnia e soluços. | Hospital/Sede da PF. | “Estado de saúde crítico”. |
| Janeiro 2026 | Queda com “traumatismo leve”. | Re conduzido à cela. | “Risco de morte e falta de estrutura”. |
A investida de Tarcísio e Michelle é a prova de que a direita ainda acredita no “jeitinho” institucional para salvar seus ícones. A análise é árida: se a queda fosse de um cidadão comum, o remédio seria uma dipirona e o retorno ao pátio. Para o ex-presidente, vira motivo de conferência com o decano do STF. O “drama” de Michelle e a diplomacia de Tarcísio são as duas faces da mesma moeda que tenta comprar a liberdade de um homem que, se pudesse, teria fechado a mesma Corte que agora seus aliados imploram por clemência.

