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Chacina no Rio: ativistas denunciam extermínio e relocação de corpos em operação mais letal da história

Ativistas e moradores do Complexo da Penha denunciam brutalidade das forças de segurança após retirada de mais de 60 corpos; organizações e ONU cobram responsabilização e fim da política de extermínio.
Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz, pediu a responsabilização do governador Cláudio Castro pela tragédia. Foto: antoniocarloscosta/Instagram
Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz, pediu a responsabilização do governador Cláudio Castro pela tragédia. Foto: antoniocarloscosta/Instagram
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Na sequência da maior operação policial já realizada no Rio de Janeiro, considerada a mais letal da história do estado, moradores do Complexo da Penha retiraram mais de 60 corpos de uma área de mata um dia após os confrontos. O ativista Raul Santiago, morador do Morro do Alemão, usou transmissões ao vivo para denunciar o que classificou como uma “chacina” e um “massacre” promovidos pelo Estado.

Santiago lamentou profundamente a brutalidade evidenciada no episódio, destacando a desigualdade social que marca a realidade das favelas da cidade maravilhosa. Ele declarou que, apesar da exposição cotidiana à violência, os acontecimentos daquela noite são insuportáveis e ilustram a face cruel da política de segurança.

Enquanto o governo estadual confirma oficialmente 64 mortes, incluindo quatro policiais, moradores contabilizam pelo menos outros 70 corpos retirados das matas do Complexo da Penha e do Alemão. Uma contagem que, se confirmada sem duplicidades, pode elevar a cifra total de mortos para mais de 130 vítimas.

O presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, esteve presente durante a retirada dos corpos e cobrou a responsabilização do governador Cláudio Castro pelo episódio, que denunciou como mais um capítulo da política de segurança pública que destrói vidas nas comunidades pobres e negras do Rio.

Denúncias de organizações e movimentos

Quase 30 entidades de direitos humanos divulgaram nota conjunta classificando a operação como uma “matança produzida pelo Estado brasileiro”, responsabilizando diretamente o governo estadual e seu titular por promover o confronto e a morte sistematizados em favelas, tratadas como campos de guerra.

O documento repudia a política de segurança atual por aprofundar o abismo social e perpetuar a violência institucional, e reivindica mudanças profundas, como desmilitarização das abordagens policiais, políticas sociais estruturantes, educação em tempo integral, saneamento, habitação e geração de emprego.

A Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj) definiu a ação como genocida, ressaltando que os moradores dessas comunidades são tratados como cidadãos de segunda categoria, vítimas constantes de violações de direitos básicos.

© Tomaz Silva/Agência Brasil
© Tomaz Silva/Agência Brasil

Reações internacionais e pedido de investigação

A Organização das Nações Unidas (ONU) manifestou horror com a operação, por meio do Escritório de Direitos Humanos, exigindo o cumprimento das normas internacionais de direitos humanos e investigações rigorosas sobre as mortes.

O diretor da Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz, também condenou a ação e defendeu que cada morte seja investigada para garantir transparência e responsabilização.

Contexto político e segurança pública

O episódio reacende o debate sobre a eficácia e os limites da política de segurança no país. O governo federal pressiona o Congresso pela votação urgente da PEC da Segurança Pública, que prevê endurecimento no combate ao crime organizado, incluindo medidas controvertidas como restrição da progressão de regime e anonimato para juízes que processam líderes criminais.

O governador Cláudio Castro, por sua vez, defende a operação, alegando que foi planejada e autorizada pelas autoridades competentes e que o combate ao crime deve ser firme – postura que enfrenta críticas duras da sociedade civil e especialistas.

Com informações da ABr e Agências

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