Eduardo Paes reage a críticas a palco gospel no réveillon de Copacabana e fala em preconceito

Prefeito defende diversidade religiosa, enquanto críticas apontam apagamento simbólico de tradições afro-brasileiras
Palco gospel expõe disputa entre Paes, religiões afro e Globo no réveillon
Palco gospel expõe disputa entre Paes, religiões afro e Globo no réveillon
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

A manutenção de um palco gospel no réveillon de Copacabana, pelo segundo ano consecutivo, colocou o prefeito Eduardo Paes no centro de uma controvérsia que misturou política cultural, laicidade do Estado e disputa por narrativas religiosas.

Nas redes sociais, Paes reagiu às críticas afirmando que a virada do ano no Rio de Janeiro deve ser uma celebração aberta a todos os credos. Para o prefeito, excluir a música gospel seria, segundo suas palavras, uma forma de preconceito disfarçado de defesa da diversidade.

Religiões afro e o apagamento simbólico

As críticas iniciais partiram de lideranças de religiões de matriz africana. Entre elas, o professor e babalawô Ivanir dos Santos, citado pelo colunista Ancelmo Gois, do Globo. Ele reconhece o direito de evangélicos ocuparem espaço na festa, mas aponta um desequilíbrio crescente.

Segundo Ivanir, práticas que historicamente moldaram o réveillon carioca — roupas brancas, oferendas ao mar e rituais dedicados a Iemanjá — perderam visibilidade nos últimos anos. Para ele, a criação de palcos religiosos institucionalizados, sem iniciativas equivalentes para tradições afro-brasileiras, produz uma hierarquização simbólica no espaço público.

Quando a crítica vem da Globo

O debate ganhou outra dimensão quando a jornalista Flávia Oliveira, da Rede Globo, passou a criticar diretamente Eduardo Paes pelo palco gospel. A manifestação chamou atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo contexto em que ocorre.

Enquanto a jornalista questiona a presença evangélica na festa pública, a própria Globo intensificou sua aposta nesse mesmo público. Personagens evangélicos em novelas, quadros no Fantástico e produções documentais voltadas à fé se multiplicaram, em uma estratégia clara de reconquista de audiência.

Com os evangélicos já próximos de 30% da população brasileira, o cálculo é simples: onde há gente, há audiência; onde há audiência, há faturamento.

Troca direta nas redes

A reação de Paes veio em tom direto. No X, escreveu que o réveillon “é de todos” e listou ritmos e crenças, encerrando a mensagem com um desfile ecumênico de saudações religiosas.

Flávia Oliveira rebateu, interpretando a expressão “essa gente” como desrespeitosa. Em resposta, mencionou a apropriação comercial da festa, o histórico de apagamento cultural e a violência sofrida por comunidades de matriz africana.

O prefeito não recuou. Reafirmou que continuará celebrando “todos os cariocas” e insistiu na defesa de uma cidade aberta a todas as crenças.

Coerência seletiva

A controvérsia escancarou uma contradição incômoda. Ao mesmo tempo em que critica o palco gospel montado pela prefeitura, a Globo disputa o mesmo público evangélico com a Record, incorporando cada vez mais narrativas religiosas em sua programação.

A emissora não se converteu; ajustou o roteiro. Fé, valores familiares e personagens “humanizados” funcionam como antídoto contra a perda de relevância em um país cada vez mais atravessado pelo fundamentalismo religioso.

O palco e a programação

O embate ocorre durante a divulgação do Réveillon 2026, que terá, pela primeira vez, um palco gospel fixo na Praia do Leme, ao lado de Copacabana.

Batizado de Palco Leme, o espaço reunirá DJ Marcelo Araújo, Midian Lima, Samuel Messias, Thalles Roberto e o Grupo Marcados, com apresentações a partir das 19h. É a segunda vez que artistas evangélicos integram oficialmente a programação da virada carioca.

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