Pobre Rio

Plano de Cláudio Castro pode levar Rio a eleger governador-tampão em 2026

Renúncia antecipada para disputa ao Senado abriria eleição indireta na Alerj e consolidaria articulação para manter o controle do Palácio Guanabara.
O governador do Rio, Claudio Castro (PL, à direita), e o secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione (ao centro), recém-filiado ao PL (Divulgação/Governo do Rio/.)
O governador do Rio, Claudio Castro (PL, à direita), e o secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione (ao centro), recém-filiado ao PL (Divulgação/Governo do Rio/.)
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

✅ Castro avalia deixar o governo após o Carnaval para concorrer ao Senado
✅ Vacância abriria caminho para eleição indireta na Alerj
✅ Nicola Miccione surge como nome preferido para mandato-tampão
✅ Sucessão fluminense enfrenta vazio institucional na linha sucessória
✅ Movimento pode favorecer Eduardo Paes na disputa de 2026

O Rio de Janeiro volta a ensaiar um roteiro conhecido: rearranjos de poder feitos longe das urnas e sob o argumento da “estabilidade”. O plano do governador Cláudio Castro de se desincompatibilizar do cargo ainda no início de 2026, para disputar uma vaga no Senado, pode empurrar o estado para uma eleição indireta e produzir um governador-tampão — escolhido não pelo voto popular, mas por articulação política.

Desde a República Velha, o país convive com soluções de gabinete para crises políticas. O “governar por interpostas pessoas”, tão comum nos anos do café com leite, retorna sob nova embalagem jurídica. A história mostra que essas saídas costumam preservar projetos, não necessariamente mandatos conferidos pelo eleitor.

“Quando o voto sai de cena, o poder costuma se reorganizar em silêncio — e sempre em benefício de quem já o detém.”

A estratégia do governador

Aliados relatam que Castro não pretende esperar o prazo legal de abril para deixar o cargo. A ideia é aproveitar a visibilidade do Carnaval e, em seguida, dedicar-se integralmente à campanha ao Senado. O movimento, porém, depende do cenário político-jurídico que envolve o governo fluminense e do sucesso da articulação para emplacar um sucessor de confiança.

Um vácuo institucional

O Rio vive uma situação atípica. O vice-governador, Thiago Pampolha, renunciou em maio para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. O então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso pela Polícia Federal, solto com tornozeleira eletrônica e afastado do comando do Legislativo. Na avaliação de aliados de Castro, o atual presidente interino da Casa, Guilherme Delaroli, não poderia assumir o governo.

Pela Constituição estadual, se a vacância ocorrer na segunda metade do mandato, o presidente do Tribunal de Justiça assume provisoriamente e convoca, em até 30 dias, uma eleição indireta na Alerj.

O nome do consenso — ou do controle

É nesse cenário que surge Nicola Miccione, secretário da Casa Civil, já filiado ao PL. Vendido como técnico e sem ambições eleitorais, Miccione é descrito por Castro como o nome capaz de unir correntes políticas e concluir o mandato até dezembro. Na prática, a escolha garantiria ao governador influência indireta sobre o Palácio Guanabara.

Castro já atua para conter dissidências internas. Em conversas reservadas, deixou claro que não tolerará candidaturas alternativas. O recado foi direto: quem romper será tratado como adversário e perderá espaço no governo.

Impacto eleitoral

A eventual eleição de um governador-tampão também reorganiza o tabuleiro de 2026. O principal beneficiado seria o prefeito do Rio, Eduardo Paes, pré-candidato ao governo. Sem um adversário comandando a máquina estadual, Paes ganharia margem para ampliar alianças, sobretudo na Baixada Fluminense e no interior.

O fator TSE

Há ainda um plano alternativo, menos provável, mas presente no debate: a renúncia pura e simples como forma de esvaziar o processo que Castro enfrenta no TSE por abuso de poder no caso Ceperj. Parte dos aliados avalia que a saída poderia afastar o risco de cassação, mas não o de inelegibilidade — razão pela qual o governador aposta, hoje, em sucessivos pedidos de vista para empurrar o julgamento.

O que está em jogo

A costura avança em Brasília e no Rio. A filiação discreta de Miccione ao PL, chancelada por Flávio Bolsonaro, foi um passo calculado. O martelo ainda não foi batido, mas a engrenagem está montada.

Se o plano se confirmar, o Rio entrará em 2026 governado por um nome escolhido em gabinete — mais um capítulo de uma tradição fluminense em que o poder raramente aceita o risco do voto quando pode se proteger pela regra.

Recomendadas