Contra o Imperialismo

Cinelândia vira palco de repúdio à ofensiva dos EUA contra a Venezuela

Ato no Centro do Rio reúne imigrantes e partidos de esquerda em defesa da soberania venezuelana e contra a captura de Nicolás Maduro.
O protesto foi motivado pelo que os organizadores classificam como o sequestro do presidente venezuelano | Gilberto Costa/Agência Brasil
O protesto foi motivado pelo que os organizadores classificam como o sequestro do presidente venezuelano | Gilberto Costa/Agência Brasil
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico

Jornalista do Diário Carioca.

A Cinelândia, velha arena das disputas políticas brasileiras, voltou a cumprir seu papel histórico. Na tarde de segunda-feira, o espaço foi ocupado por manifestantes que denunciaram a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela e a prisão do presidente Nicolás Maduro, levada a cabo após anúncio direto da Casa Branca.

O ato não foi apenas um gesto de solidariedade internacional. Foi, sobretudo, uma reação ao retorno explícito da lógica do porrete na política externa norte-americana — uma lógica que a América Latina conhece bem e que jamais esqueceu.

Da Doutrina Monroe às intervenções do século XX, o continente aprendeu a reconhecer o som das botas antes mesmo que elas toquem o chão. Eduardo Galeano já alertava: a história latino-americana costuma ser escrita “com tinta importada e sangue local”. O que se viu na Cinelândia foi a tentativa de reescrever essa história em voz alta.

“Quando a força substitui o direito internacional, a soberania vira exceção e o imperialismo volta a ser regra.”

Vozes da diáspora venezuelana

Entre bandeiras e cartazes, venezuelanos residentes no Brasil expressaram indignação. Ali Alvarez, estudante de pós-graduação na UFRJ, disse não ter imaginado ver seu país submetido a uma ação militar direta. Para ele, a captura de Maduro representa uma agressão não apenas a um governo, mas ao povo e à Constituição venezuelana.

O músico Alexis Graterol seguiu a mesma linha, acusando Washington de agir movida por interesses econômicos, sobretudo o petróleo. A fala ecoa declarações do próprio Trump, que anunciou a intenção de levar grandes empresas petrolíferas norte-americanas à Venezuela.

Dissenso e fratura

Nem todos os venezuelanos presentes concordavam. Marco Mendoza, psicólogo radicado no Chile, afirmou apoiar a intervenção, argumentando que o país já estaria submetido a influências externas de outras potências. O contraste de opiniões expôs uma diáspora atravessada por dor, exílio e leituras radicalmente distintas sobre o futuro da Venezuela.

América Latina em alerta

A preocupação extrapolou fronteiras. O cineasta colombiano Raúl Vidales alertou para o risco de expansão do modelo intervencionista em um continente já marcado por bases militares e ingerências externas. Para ele, a resposta só pode ser coletiva e internacional.

Lideranças brasileiras reforçaram o diagnóstico. Daniel Iliescu, do PCdoB, avaliou que a ação dos EUA sinaliza o enfraquecimento do multilateralismo e a retomada da força unilateral como método. Um sintoma, segundo ele, da decadência que Washington tenta conter com beligerância.

Imigração e realidade brasileira

O protesto também jogou luz sobre a presença venezuelana no Brasil. Dados oficiais indicam que eles formam o maior grupo de imigrantes no país, com cerca de 200 mil pessoas. Mais de 115 mil foram acolhidos por programas estatais desde 2018, o que torna o destino da Venezuela uma questão concreta — não abstrata — para a sociedade brasileira.

Ao ocupar a Cinelândia, os manifestantes lembraram que a política externa não acontece em mapas distantes. Ela atravessa fronteiras, famílias e biografias. E, quando a soberania é violada em um país, o eco costuma ressoar por todo o continente.

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