No Rio de Janeiro, a paz virou intervalo. Aliados do governador Cláudio Castro afirmam que o estado pode deflagrar novas operações contra o Comando Vermelho a qualquer momento, dependendo apenas do deslocamento das lideranças da facção e da validação final da inteligência policial. A mensagem é clara: o gatilho permanece engatilhado.
Segundo integrantes do governo, as forças de segurança já dispõem de informações consideradas “consistentes” para cumprir novos mandados de prisão contra chefes do CV. A decisão, dizem, é técnica — baseada em vigilância contínua, cruzamento de dados e avaliação em tempo real dos alvos. Na prática, trata-se de uma política de prontidão permanente.
Essa lógica não é nova. Desde o início do século XX, quando reformas urbanas empurraram pobres para os morros e o Estado respondeu com repressão, o Rio alterna abandono e choque armado como política pública.
“No Rio, a guerra não é declarada — ela apenas continua.”
A sombra da operação mais letal do Brasil
O pano de fundo é a megaoperação “Contenção”, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha. Mobilizando cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar, a ação tinha como objetivo conter a expansão territorial do Comando Vermelho e cumprir cerca de 100 mandados de prisão, incluindo ordens contra lideranças foragidas em outros estados.
O saldo foi devastador: 122 mortos, sendo cinco policiais militares e 117 pessoas classificadas pelo governo como integrantes do crime organizado. O número superou o Massacre do Carandiru, tornando a operação a mais letal da história do país. Escolas fecharam, o transporte público foi interrompido e bairros inteiros viveram sob cerco.
Como nas páginas mais sombrias do naturalismo brasileiro, de Aluísio Azevedo a Lima Barreto, a violência aparece como rotina — brutal, previsível e socialmente dirigida.
Inteligência, discurso e realidade
O governo estadual insiste no discurso da precisão cirúrgica, amparada por inteligência e tecnologia. Críticos, no entanto, apontam que operações desse porte tendem a repetir padrões: alto número de mortes, impacto direto sobre moradores e escassa responsabilização posterior.
A promessa de novas ações “a qualquer momento” reforça a sensação de estado de exceção informal em territórios já marcados pela ausência histórica de políticas sociais estruturantes. A facção é combatida; a população, frequentemente, fica no fogo cruzado — literal e simbólico.
O dilema que se repete
O Rio segue preso a um dilema antigo: combater o crime organizado sem reproduzir a lógica da eliminação. Enquanto a segurança pública for tratada como espetáculo de força e não como política de longo prazo, cada nova operação carrega o risco de entrar para a história — não pela solução, mas pelo número de mortos.

