O governador Cláudio Castro, em mais um lance de sua gestão voltada ao afago das forças de segurança, decidiu abrir os cofres públicos para premiar aqueles que já deveriam estar usufruindo do descanso da reserva. Em decreto publicado nesta terça-feira (13), o Palácio Guanabara institucionaliza um aumento generoso nas gratificações de policiais e bombeiros que trocam o pijama pela farda em turnos extras. O movimento, travestido de reforço operacional, soa como um paliativo caro para uma política de segurança que prefere recrutar o passado a planejar o futuro.
A matemática do privilégio seletivo
A atualização do Programa de Estímulo Operacional (PEOp) não é apenas um ajuste inflacionário; é uma reengenharia de castas. O governo não apenas elevou os valores, mas criou uma nova categoria, o “Nível D”, garantindo que nenhum braço armado fique sem o seu quinhão. Enquanto a educação e a saúde do Rio enfrentam o torniquete fiscal, o teto das gratificações por um turno de 12 horas saltou de módicos R$ 555,16 para expressivos R$ 756,07. É a valorização do esforço físico em detrimento da inteligência estratégica, uma marca registrada de governos que mimetizam o autoritarismo estético.
Historicamente, o Rio de Janeiro flerta com a militarização da vida cotidiana como resposta ao caos que o próprio Estado ajuda a perpetuar. Ao convocar veteranos para programas como o “Segurança Presente”, o governo Castro evita enfrentar a vacância de quadros da ativa e a necessidade de concursos transparentes, optando por um modelo de “puxadinho” operacional que mantém a tropa sob o jugo de gratificações temporárias, enfraquecendo a estabilidade das carreiras públicas.
O preço da presença ostensiva
Abaixo, a nova hierarquia de valores que demonstra onde o governo deposita suas prioridades orçamentárias:
| Categoria / Nível | Valor Atualizado (Turno 12h) | Impacto no Erário |
| Nível A | R$ 756,07 | Elite da reserva premiada |
| Nível B | R$ 604,86 | Reajuste acima da inflação |
| Nível C | R$ 453,64 | Escalão intermediário |
| Nível D (Novo) | R$ 383,07 | A base da pirâmide reativada |
Retroatividade e o fantasma da Alerj
Como se a generosidade atual não fosse suficiente, o decreto carrega o perfume do populismo com efeito retroativo a dezembro de 2025. Na prática, é um “presente de Natal” atrasado pago com o suor do contribuinte fluminense. Enquanto isso, nos bastidores da Alerj, o Programa de Prestação de Tarefa por Tempo Certo (PTTC) aguarda a caneta de Castro para transformar o Estado em um grande quartel administrativo, sob a promessa de liberar a ativa para o policiamento ostensivo — uma narrativa que se repete há décadas sem, contudo, reduzir os índices de criminalidade real que apavoram a Baixada e a periferia.

