
Alexandre de Moraes não é apenas o magistrado que preside o inquérito do fim do mundo; ele é, acima de tudo, um mestre da semiótica política. Na noite desta quinta-feira (15), enquanto Jair Bolsonaro desfazia suas malas na “suíte” da Papudinha, Moraes desfilava sua toga de patrono perante os formandos de Direito da USP. Com a leveza de quem acaba de organizar o trânsito da República, o ministro disparou a frase que sintetiza a década: “Acho que hoje já fiz o que tinha que fazer”. O deboche, refinado nas arcadas da São Francisco, não foi gratuito. Foi a constatação de que o Estado de Direito, enfim, encontrou um zelador que não dorme — e que, ao contrário do réu, não precisa de tampões de ouvido para ignorar o barulho da própria consciência.
A ironia de Moraes é o veneno que paralisa a retórica vitimista do clã Bolsonaro. Enquanto Carluxo chora no X e a defesa reclama do ruído do ar-condicionado, o ministro trata a transferência do “Capitão” como um item de rotina em sua agenda de saneamento democrático. A plateia, composta por jovens juristas, explodiu em aplausos, não apenas pela piada sobre o tempo dos discursos, mas pelo simbolismo de ver o homem que tentou implodir o STF ser reduzido a um “problema resolvido” antes do jantar. Moraes não puniu apenas o crime; ele puniu a soberba, devolvendo Bolsonaro ao lugar que ele mesmo profetizou em 2017: o Complexo da Papuda.
Perspectivas Editoriais
A “maldade” de Moraes é, na verdade, a aplicação higiênica da lei sobre o caos?
Será que a elite política brasileira imaginava que o desfecho do maior atentado contra a democracia terminaria com uma frase descontraída em uma formatura? Ao dizer que se “conteve” em não tomar medidas contra os oradores do evento, Moraes lembrou que o poder de império da lei é cirúrgico. Ele concedeu a transferência para a Papudinha não por piedade, mas para retirar da defesa o último argumento de “tortura acústica”. Agora, Bolsonaro tem silêncio, tem cozinha e tem a solidão de uma cela de 65 metros quadrados. O que ele não tem mais é a relevância institucional para impedir que o “Xandão” — como a massa o batizou — siga fazendo o que tem que ser feito.
A Anatomia do Deboche: O Discurso de Moraes vs. A Reação da Defesa
| O Fato Jurídico | A Frase de Moraes | O Sentimento da Defesa | A Realidade Política |
| Transferência para a Papudinha. | “Já fiz o que tinha que fazer.” | Classificam como “maldade” e “confronto”. | A Justiça como rotina, não como drama. |
| Fim do “Barulho do Ar-condicionado”. | (Silêncio irônico) | Queriam prisão domiciliar. | Moraes deu silêncio, mas manteve as grades. |
| Formatura da USP. | “Quase tive que tomar medidas.” | Vê “parcialidade” no aplauso. | O Judiciário reocupando o espaço da autoridade. |
| Prisão de Bolsonaro. | Cumprimento de decisão judicial. | Alegam perseguição política. | O 8 de janeiro finalmente chegou à última instância. |
A análise do Diário Carioca é pimentosa: o riso de Moraes em São Paulo é a lágrima de Bolsonaro em Brasília. Ao tratar a prisão do maior líder da extrema-direita latina como uma tarefa doméstica concluída com sucesso, o ministro retira o caráter messiânico do réu. Bolsonaro não é um mártir; é uma pendência resolvida antes do coquetel de formatura. A “Papudinha” agora abriga um homem que descobriu que o Supremo não é apenas um prédio de vidro, mas uma instituição que, quando provocada, sabe rir por último — e com a lei debaixo do braço.





