
O mercado agropecuário brasileiro amanhece nesta quarta-feira (28) com um retrato que diz mais sobre o país do que qualquer discurso oficial.
O boi gordo — termômetro das exportações e da renda do grande produtor — abre o dia em alta de 0,12%, negociado a R$ 323,10 por arroba em São Paulo, segundo o Cepea/Esalq.
Perspectivas Editoriais
Um movimento discreto, quase tímido, mas simbólico: a carne que raramente chega inteira ao prato do trabalhador segue valorizada, enquanto as proteínas que sustentam a dieta popular escorregam ladeira abaixo.
No mesmo mercado, frango e suíno acumulam quedas expressivas, revelando uma economia onde o consumo interno perde fôlego, comprimido por renda estagnada, inflação passada e crédito seletivo. Não é apenas um ajuste técnico de preços; é uma radiografia social.
O boi gordo e a lógica da exportação
A valorização do boi gordo ocorre apesar de um cenário interno frágil. Em janeiro, o indicador acumula alta de 1,22% no mês, cotado a US$ 62,07. O dado não se explica pelo prato do brasileiro, mas pelo apetite externo. China, Europa e mercados premium seguem ditando o ritmo. O boi, aqui, já não responde ao açougue da esquina — responde ao porto.
Essa dissociação entre produção e consumo interno é estrutural. O boi gordo atende padrões internacionais, integra cadeias globais e se protege da volatilidade doméstica. Em outras palavras: ele sobe porque pode. E porque não depende do salário mínimo.
Frango e suíno: o termômetro da mesa popular
No extremo oposto, o frango — proteína da sobrevivência urbana — registra quedas diárias próximas de 1% e acumula desvalorizações superiores a 12% no mês. O frango congelado caiu para R$ 7,09, enquanto o resfriado recuou para R$ 7,16 nos atacados paulistas.
A carcaça suína especial aprofunda o movimento: queda de 1,86% no dia e 13,61% no mês, cotada a R$ 11,11/kg. Já o suíno vivo amarga retrações ainda mais duras, chegando a -17,28% em São Paulo.
Esses números não indicam abundância virtuosa, mas retração de demanda. Quando até a proteína mais barata perde valor, o mercado está dizendo, em silêncio, que o consumo encolheu. O trabalhador não estocou frango porque ficou mais barato; ele reduziu a compra porque o orçamento não acompanha.
Uma economia partida em dois mercados
O contraste entre boi, frango e suíno revela um Brasil dividido em dois circuitos:
– o mercado exportador, dolarizado, resiliente e blindado;
– o mercado interno, sensível à renda, ao crédito e ao humor do consumidor.
É nesse abismo que se decide o futuro da inflação de alimentos, da política agrícola e, em última instância, da estabilidade social. O preço não é apenas número: é linguagem. E hoje ele fala claro.





