
O pregão desta quarta-feira (28) começa com um cheiro conhecido — e amargo para quem olha além da xícara. O café arábica abre o dia em alta de 1,93%, com a saca de 60 quilos negociada a R$ 2.185,59 em São Paulo, segundo o Cepea/Esalq. Em dólares, o valor encosta nos US$ 419,90, patamar que reafirma o lugar do Brasil como potência exportadora, mas também como fornecedor de um produto cada vez mais distante do cotidiano do trabalhador.
Enquanto isso, o café robusta — base do café solúvel e dos blends populares — segue na direção oposta, com queda diária de 0,61%, cotado a R$ 1.282,21. A divergência entre as duas variedades não é mero detalhe técnico: ela revela a divisão estrutural do mercado agrícola brasileiro entre o luxo sensorial e a função industrial, entre o café de vitrine internacional e o café que sustenta a rotina de quem acorda cedo.
Perspectivas Editoriais
O café como ativo, não como alimento
O avanço do arábica ocorre apesar de um mês ainda negativo no acumulado recente. O dado central está fora das fronteiras nacionais. O café de qualidade superior responde à demanda externa, às cafeterias especializadas e aos fundos que tratam commodities como ativos financeiros. O preço sobe não porque o brasileiro bebe mais café, mas porque o mundo paga mais por ele.
Já o robusta, mesmo acumulando alta mensal, sente o peso da indústria pressionada por custos, estoques e retração de consumo. É o café do volume, não da narrativa. E no Brasil de renda comprimida, volume sem margem vira problema.
Açúcar: estabilidade aparente, desgaste estrutural
O açúcar cristal apresenta variações discretas, quase protocolares. Na capital paulista, a saca de 50 quilos sobe 0,03%, cotada a R$ 104,95. Em Santos, principal praça de exportação, o movimento é de queda de 0,08%, com o produto negociado a R$ 110,53.
Mas o detalhe está no acumulado mensal: quedas superiores a 5%. O açúcar, assim como o café, vive o dilema entre mercado externo e demanda interna enfraquecida. A diferença é que aqui não há glamour — apenas ajuste de preços em um setor altamente mecanizado, sensível ao câmbio e à política energética.
Milho: o chão da cadeia produtiva cede
Na base de tudo, o milho recua 0,70%, com a saca de 60 quilos a R$ 66,22, acumulando queda mensal próxima de 5%. O milho não vai direto à mesa, mas sustenta todas as outras cadeias: ração, proteína animal, indústria. Quando ele cai, o recado é claro: a engrenagem desacelera.
Não se trata de alívio inflacionário virtuoso. Trata-se de demanda contida, de cautela, de um mercado que produz muito e vende com dificuldade.
Grãos, classe e destino
Café arábica em alta, robusta em queda. Açúcar estável, milho recuando. O mosaico revela um país onde o que é premium resiste e o que é base sofre. O campo não está em crise homogênea; ele está hierarquizado. E, como sempre, essa hierarquia ecoa na cidade, no preço final, no hábito de consumo e no silêncio das estatísticas sociais.
O mercado fala. O problema é quem pode ouvir — e quem apenas sente no bolso.





