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Fernando Haddad ensaia saída do Governo Lula

A despedida anunciada do ministro da Fazenda não é um gesto pessoal nem um capricho eleitoral. É um movimento calculado dentro de uma engrenagem maior, onde o Estado negocia sua continuidade, o mercado exige previsibilidade e o PT testa seus limites históricos.

29 de janeiro de 2026

A política brasileira nunca se despede de ninguém sem antes medir o peso do corpo que sai e o vácuo que fica. Fernando Haddad, ao anunciar que deixará o Ministério da Fazenda em fevereiro, não produziu um fato administrativo. Produziu um signo. Um aviso cifrado de que o ciclo atual do lulismo econômico entrou em sua fase mais delicada: a da sucessão antes do fim.

A declaração, feita com a cautela de quem conhece os rituais do poder, foi direta apenas na aparência. Não houve data cravada, nem rito de encerramento. Houve a comunicação ao presidente — esse detalhe, repetido como mantra, diz mais do que qualquer cronograma. No Brasil real, nada termina sem o aval simbólico de Lula. O resto é encenação.

Haddad sai dizendo que sai, mas permanece como ideia. A Fazenda que ele ocupou não foi apenas um ministério: foi um amortecedor social entre o apetite do capital financeiro e a memória inflacionária que ainda assombra as classes populares. Seu nome virou garantia, senha de acesso, escudo retórico. Quando ele anuncia a saída, o mercado não pergunta “quando”, pergunta “quem segura depois”.

O ministério como trincheira

Desde que assumiu, Haddad operou numa zona cinzenta: agradar sem ceder, conter sem romper. O discurso fiscal responsável foi vendido como virtude moral, enquanto o custo social da austeridade seguia naturalizado. A classe média aplaudiu a previsibilidade. O andar de baixo pagou a conta em silêncio, como sempre.

Não se trata de demonizar o personagem, mas de situá-lo. Haddad foi o ministro possível dentro de um pacto que não ousou confrontar o rentismo. A Fazenda, sob seu comando, funcionou como cartório da conciliação: selou acordos, garantiu estabilidade, evitou crises abertas. O problema é que estabilidade, no Brasil, costuma significar imobilidade estrutural.

Sua saída, portanto, não ameaça o sistema. Ela o reafirma. O Estado sinaliza que a política econômica não pertence a indivíduos, mas a consensos. Trocam-se nomes, preservam-se compromissos.

Pressão partidária, cálculo histórico

O PT, por sua vez, age como partido que conhece o deserto que o cerca. Pressiona Haddad a disputar São Paulo não por entusiasmo, mas por escassez de quadros competitivos. A extrema direita ocupa o território com discurso simples e raivoso; o campo progressista responde com técnicos exaustos e narrativas defensivas.

Gleisi Hoffmann vocaliza o que o partido inteiro pensa: é preciso “escalar os melhores”. A frase, importada do vocabulário esportivo, revela o drama. Não há time, há peças. Haddad vira ativo eleitoral antes mesmo de sair do cargo. Sua hesitação, vendida como cansaço pessoal, é também consciência histórica: São Paulo é um cemitério de projetos petistas.

Lula, experiente como poucos, tenta convencê-lo. Não por altruísmo, mas por necessidade estratégica. O presidente sabe que o lulismo sobrevive menos por ideias novas e mais pela reciclagem de figuras conhecidas. A renovação virou palavra bonita para esconder o medo do vazio.

Sucessão sem ruptura

No Ministério da Fazenda, o nome de Dario Durigan surge como continuidade técnica, não como ruptura política. Haddad o defende com cuidado cirúrgico, evitando ungir oficialmente um sucessor. O gesto é clássico: protege o aliado sem desafiar o jogo interno do partido. A crítica que Durigan recebe não é técnica, é simbólica — setores do PT ainda resistem à lógica econômica que a própria cúpula adotou.

A eventual troca no comando da Fazenda não altera o eixo. O tripé permanece: responsabilidade fiscal, diálogo com o mercado, contenção social. O que muda é o rosto na fotografia oficial.

O que realmente está em jogo

A saída de Haddad não inaugura uma crise, mas explicita um limite. O governo Lula governa administrando expectativas, não transformando estruturas. Quando o principal fiador dessa lógica anuncia que deixará o posto, o sistema testa sua própria resiliência.

Para o leitor comum, não se trata de acompanhar o calendário político como novela. Trata-se de entender que, enquanto os nomes circulam, a engrenagem segue intacta. O poder muda de mãos, mas não de direção. Haddad sai do palco, o roteiro continua.

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