
A história brasileira é cíclica, quase viciosa, em seu hábito de ver figuras que outrora empunharam o cetro do controle estatal buscarem o refúgio das terras iatistas de Miami quando a balança da Justiça finalmente pende para o lado do Direito. Alexandre Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-deputado federal, agora não é mais do que um número em um dossiê sob análise no Departamento de Estado dos Estados Unidos. O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) formalizou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que a “nota verbal” — esse eufemismo diplomático para um grito de ordem judicial — já ecoa nos corredores de Washington.
A queda de Ramagem não é apenas a derrocada de um indivíduo, mas o colapso de uma estética de poder que acreditava na impunidade através da vigilância. Condenado a 16 anos de reclusão por sua participação direta em uma trama golpista que tentou subverter a vontade popular, o ex-parlamentar viu seu processo transitar em julgado em novembro de 2025. O que se seguiu foi o roteiro clássico do desespero: a fuga. Não pelas portas iluminadas dos aeroportos internacionais, onde seu rosto era conhecido, mas pelas sombras das fronteiras terrestres.
Perspectivas Editoriais
A Geopolítica da Fuga e a Porosidade das Fronteiras
A investigação da Polícia Federal, sob o comando de Andrei Rodrigues, desenha um mapa de fuga que beira o cinematográfico, se não fosse trágico para a soberania nacional.
Suspeita-se que Ramagem tenha atravessado a fronteira para a Guiana de forma clandestina, evadindo-se de qualquer fiscalização, para somente em Georgetown embarcar rumo aos Estados Unidos.
É a ironia suprema: o homem que comandou a inteligência brasileira, responsável por monitorar as fronteiras e as ameaças ao Estado, utilizou-se das próprias vulnerabilidades que deveria ter combatido para escapar da aplicação da lei.
Este movimento revela a face mais nua da luta de classes no estrato do poder: o uso de recursos logísticos e conexões internacionais para garantir um exílio dourado, enquanto o cidadão comum é esmagado pela máquina que o próprio Ramagem ajudou a gerir.
A extradição, fundamentada no Tratado Bilateral entre Brasil e EUA e na Lei nº 13.445/2017, exige um rigor documental que o STF, sob a batuta de Alexandre de Moraes, parece ter seguido à risca, detalhando cada crime, cada pena e cada prova.
O Labirinto Diplomático e o Destino das Sombras
Agora, a bola está no campo norte-americano. O Departamento de Estado avalia a documentação que inclui local, data e circunstâncias da trama golpista. Não se trata apenas de um procedimento administrativo, mas de um teste para a diplomacia de Biden (ou seus sucessores) frente à justiça de um país aliado.
Para o Diário Carioca, este episódio serve como um lembrete pedagógico: o aparato de inteligência, quando desviado de sua função republicana para servir a projetos personalistas, acaba por devorar seus próprios criadores.
Ramagem, em Miami, aguarda o veredito não de um juiz, mas de um processo de extradição que pode tardar, mas que raramente falha quando a documentação é robusta.
A República, ferida em 2022 e 2023, começa a cicatrizar conforme traz de volta, algemados ou não, aqueles que tentaram apagar sua luz. O exílio de Ramagem é a prova de que, para os que conspiram contra a democracia, o mundo está ficando cada vez menor.





