
Rússia e Ucrânia realizaram na quinta-feira, 29 de janeiro de 2026, em operação coordenada por organismos humanitários internacionais no leste europeu, a primeira troca de corpos de soldados mortos em combate neste ano, com Moscou devolvendo mil corpos a Kiev e recebendo 38 militares russos, em uma ação que visa cumprir obrigações humanitárias mínimas em meio à guerra prolongada.
Os mortos como fronteira ética
A troca de corpos ocupa um espaço singular no conflito: é o ponto em que a lógica militar cede, ainda que provisoriamente, à ética humanitária. Em uma guerra marcada pela retórica totalizante e pela desumanização do inimigo, reconhecer o direito ao sepultamento é admitir que existe um limite, por mais frágil que seja. Não se trata de reconciliação, mas de contenção moral diante do colapso completo das normas.
Perspectivas Editoriais
A assimetria dos números
Mil corpos ucranianos devolvidos contra 38 russos não é apenas um dado logístico; é um indicador político e militar. Kiev evita transformar o número em propaganda explícita, mas o impacto interno é inevitável. A dimensão da perda humana reforça a percepção de desgaste prolongado, enquanto Moscou, ao aceitar a troca, também reconhece publicamente baixas que muitas vezes permanecem opacas ao público russo. Os números falam onde os discursos se calam.
Cruz Vermelha e a diplomacia do mínimo
A mediação da Cruz Vermelha Internacional revela a persistência de canais técnicos em um cenário de ruptura diplomática quase total. Caminhões refrigerados, protocolos de identificação e comunicação neutra compõem uma engrenagem silenciosa que opera à margem das negociações políticas formais. Essa “diplomacia do mínimo” não resolve o conflito, mas impede que ele ultrapasse certos limites civilizatórios.
Identificação e luto como política de Estado
Na Ucrânia, os corpos devolvidos passam por processos oficiais de identificação antes de serem entregues às famílias. Esse procedimento não é apenas administrativo. Ele reafirma o vínculo entre Estado e cidadão em tempos de guerra. Nomear os mortos, reconhecer sua identidade e registrar a perda é uma forma de resistência simbólica contra a anonimização da violência. O luto, aqui, é também um ato político.
Continuidade em meio ao colapso
Desde o início da invasão russa em 2022, a troca de corpos se consolidou como um dos raros mecanismos de cooperação contínua entre os dois países. Em 2025, foram 14 operações semelhantes. A repetição não indica normalidade, mas persistência institucional em um ambiente de exceção permanente. É a rotina do anormal, sustentada por regras que sobrevivem mesmo quando tudo o mais se desfaz.
Os limites da cooperação humanitária
Apesar de sua importância simbólica, a troca de corpos não sinaliza avanço diplomático. Ela convive com a intensificação dos combates e com a ausência de negociações substantivas. O gesto humanitário não suaviza a guerra; apenas delimita um espaço onde a barbárie não se completa. Confundir esse mecanismo com distensão política é um erro analítico recorrente.
A guerra que continua após a morte
Mesmo após o fim da vida, os soldados permanecem inseridos na lógica do conflito. Seus corpos se tornam estatísticas, símbolos, argumentos silenciosos. A troca revela que a guerra não termina no campo de batalha: ela se estende à memória, ao luto coletivo e à construção das narrativas nacionais. Enterrar os mortos é, paradoxalmente, uma das formas de continuar lutando.





