
Em um desfecho que mistura alento financeiro e simbolismo político, o governo da Bahia oficializou, nesta quarta-feira (4), o pagamento da indenização aos familiares de Mãe Bernadete. A líder quilombola, cuja voz ecoava internacionalmente na defesa dos direitos humanos, foi brutalmente assassinada em 2023. O acordo, mantido sob cláusulas de confidencialidade, marca uma postura inédita de reconhecimento de responsabilidade do Estado em 2026, evidenciando o “Efeito Borboleta” que a violência no campo exerce sobre a imagem diplomática e jurídica do Brasil perante cortes internacionais de direitos humanos.
A Solução Extrajudicial como Reconhecimento de Falha
A intermediação da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos buscou evitar uma longa batalha judicial que poderia se arrastar por décadas. Para a Procuradoria Geral do Estado, a indenização não é apenas um desembolso, mas uma “forma concreta de reconhecer a gravidade do ocorrido”. No contexto de 2026, essa agilidade na reparação indica que o governo estadual e a União reconhecem que Bernadete Pacífico estava sob a tutela de programas de proteção que, na prática, foram incapazes de impedir que ela fosse alvejada 22 vezes dentro de sua própria residência no Quilombo Pitanga dos Palmares.
Perspectivas Editoriais
O Sangue e a Terra: O Ciclo da Tragédia em Simões Filho
O assassinato de Mãe Bernadete em agosto de 2023 não foi um evento isolado, mas a culminação de um ciclo de violência territorial. Seis anos antes, seu filho, Binho do Quilombo, também fora executado em circunstâncias semelhantes. Para Jurandy Pacífico, o filho sobrevivente, a indenização possui um caráter de proteção física e subsistência para uma família que foi sistematicamente alvo de grupos criminosos interessados na exploração de territórios quilombolas. Em 2026, a disputa de terras na região metropolitana de Salvador continua sendo um dos principais focos de tensão geopolítica interna do país.
O Júri Popular e a Busca por Justiça Criminal
Enquanto a reparação financeira se concretiza, o sistema de justiça criminal prepara-se para um dos julgamentos mais aguardados da década. No próximo dia 24 de fevereiro de 2026, Arielson da Conceição Santos e o foragido Marílio dos Santos deverão ir a júri popular. A condenação dos executores e, principalmente, dos mandantes é vista por movimentos sociais como o fechamento necessário de uma ferida aberta na Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq). A impunidade, em casos anteriores, serviu como combustível para a reiteração de crimes contra lideranças tradicionais.
Atos Públicos e a Memória da Liberdade Religiosa
Além dos valores financeiros, o acordo prevê a realização de atos públicos de homenagem. Em 2026, a preservação da memória de Mãe Bernadete transcende a questão agrária; ela tornou-se um símbolo da resistência contra a intolerância religiosa e a favor da diversidade cultural. O Diário Carioca destaca que a reparação do Estado deve vir acompanhada de uma mudança estrutural na segurança pública das comunidades tradicionais, sob pena de as indenizações tornarem-se apenas um “preço” pago pela vida de defensores que o governo não consegue proteger.
Geopolítica do Quilombo em 2026
A atuação de grupos criminosos dentro de territórios quilombolas, motivadora do crime contra Bernadete, revela uma falência da soberania estatal em áreas de proteção especial. Em 2026, a integração de quilombos ao ecossistema econômico sem a proteção de forças de segurança especializadas continua sendo o calcanhar de Aquiles das políticas de direitos humanos no Brasil. O pagamento desta indenização é um passo importante, mas o legado de Mãe Bernadete exige que o Estado recupere o controle territorial dessas comunidades, impedindo que o sangue continue a ser a moeda de troca em disputas de terra.
Takeaways:
- Governo da Bahia e União concluíram o pagamento de indenização aos filhos de Mãe Bernadete.
- O acordo é extrajudicial e os valores permanecem sob sigilo por razões de segurança.
- Mãe Bernadete foi executada em 2023 por sua atuação contra o crime organizado em territórios quilombolas.
- Dois acusados vão a júri popular no dia 24 de fevereiro de 2026.
Fatos-chave:
- Vítima: Maria Bernadete Pacífico (Mãe Bernadete).
- Local do crime: Quilombo Pitanga dos Palmares, Simões Filho (BA).
- Data do assassinato: 17 de agosto de 2023.
- Método: Execução com 22 disparos de arma de fogo.
- Data do acordo/pagamento: 4 de fevereiro de 2026.
- Data do Júri Popular: 24 de fevereiro de 2026.





