A engrenagem de exploração sistêmica mantida por Jeffrey Epstein não era apenas um enclave de perversão na elite financeira de Manhattan; era uma rede transnacional que enxergava o Sul Global como um imenso catálogo de corpos vulnerabilizados. Novos documentos desclassificados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos expõem que Daniel Siad, o “olheiro” de confiança do predador, tinha Porto Alegre como destino estratégico para o aliciamento de jovens. Sob a fachada de prospecção para agências de renome, o projeto visava converter a crise social e o sonho de ascensão na moda em mercadoria para o tráfico sexual internacional.
Daniel Siad, um argelino radicado na Suécia, operava como o braço logístico desse ecossistema. Suas comunicações de 2012 revelam um itinerário sombrio: oito dias no Rio Grande do Sul após uma escala técnica em Lisboa. Não se tratava de uma viagem de negócios convencional. Siad, descrito pelo falecido Jean-Luc Brunel como o principal recrutador de meninas para Epstein, utilizava sua experiência como fotógrafo de moda para camuflar o monitoramento de menores de idade. A escolha de Porto Alegre reforça a tese de que o capital estrangeiro buscava especificamente os padrões estéticos do sul do Brasil para alimentar uma demanda perversa em Paris, Barcelona e Nova York.
O Colonialismo Sexual e a Indústria da Moda
O interesse de Epstein pelo Brasil extrapolava visitas pontuais. Arquivos de 2016 detalham planos agressivos para a aquisição de agências nacionais e o patrocínio de concursos de beleza. A lógica era perversamente corporativa: obter “acesso direto” através da compra da infraestrutura de modelos. O uso de acordos de confidencialidade (NDAs) servia como escudo jurídico para garantir que o recrutamento de meninas de 16 anos, como uma neozelandesa citada nos e-mails, ocorresse sob um manto de legalidade institucional.
Essa estrutura evidencia a falência das salvaguardas sociais frente ao poder econômico ilimitado. Enquanto interlocutores como o músico Elkholy discutiam a compra da Ford Models — que nega qualquer vínculo — o objetivo final era o controle total sobre as participantes. O Brasil, com sua desigualdade gritante e histórica exportação de talentos para as passarelas, foi visto como um mercado de reposição para o esquema. A impunidade de Siad, que até 2026 permanece sem condenações formais apesar do rastro de e-mails em Dubai e Cuba, é a prova viva de que as fronteiras do capital protegem os algozes enquanto devoram as vítimas.
Takeaways:
- A exploração sexual internacional utiliza a moda como fachada legítima para o tráfico humano.
- O Brasil foi alvo estratégico devido à vulnerabilidade socioeconômica de jovens modelos.
- A rede de Epstein operava com táticas corporativas, incluindo aquisições de empresas e NDAs.
- O silêncio das autoridades globais sobre recrutadores como Daniel Siad perpetua a impunidade.
Fatos-chave:
- Data do e-mail principal: Junho de 2012.
- Destino: Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
- Duração da missão: 8 dias em solo brasileiro.
- Idade de Daniel Siad: 69 anos (nascido em 1957).
- Alcance geográfico: Atuação em mais de 10 países, incluindo Cuba e África do Sul.
- Vínculo direto: Associado a Jean-Luc Brunel (morto em 2022).
- Transações: Pagamentos rastreados em contas bancárias em Dubai.





