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Sapucaí converte segunda noite em manifesto: De Rita Lee à escrita insurgente de Carolina Maria de Jesus

Mocidade, Beija-Flor, Viradouro e Tijuca desfilam enredos que confrontam o apagamento histórico e celebram a soberania cultural.

JR Vital
JR Vital fev. 16, 2026

A segunda noite de desfiles do Grupo Especial no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (16), consolida o Carnaval 2026 como um dos mais politizados e esteticamente densos da década. Através de quatro agremiações, a Marquês de Sapucaí deixa de ser apenas uma passarela para se tornar um tribunal de memória e reparação. Os enredos deste ano não apenas homenageiam figuras icônicas; eles articulam uma crítica profunda à desigualdade social e à repressão religiosa, reafirmando o samba como a voz oficial da esquerda e das camadas populares brasileiras.

A Mocidade Independente de Padre Miguel abre o espetáculo elevando Rita Lee ao status de “padroeira da liberdade”. O desfile transcende a biografia musical para focar na transgressão política da artista, que desafiou a ditadura e o conservadorismo. Em seguida, a Beija-Flor de Nilópolis traz o Bembé do Mercado, celebração centenária de Santo Amaro (BA). O carnavalesco João Vitor Araújo destaca que a festa é um grito de liberdade real, nascido no pós-abolição, quando o povo negro entendeu que a reparação não viria do Estado, mas da manutenção de sua fé e do toque dos seus tambores.

O Ritmo de Ciça e a Caneta de Carolina

A Unidos do Viradouro personaliza a resistência na figura do Mestre Ciça. Ao celebrar seus 70 anos de vida e sua maestria à frente da bateria, a escola de Niterói exalta o saber ancestral que rege o coração do Carnaval. É uma homenagem ao operário do ritmo, àquele que sustenta a estrutura da festa. Fechando a noite, a Unidos da Tijuca apresenta o enredo mais urgente da temporada: a vida de Carolina Maria de Jesus. O carnavalesco Edson Pereira propõe um desfile que expõe as chagas do “Quarto de Despejo”, lembrando que o sonho de Carolina — o prato de comida — ainda é a luta diária de milhões de brasileiros sob o capitalismo.

A Sapucaí como Palco de Disputa Simbólica

O Carnaval 2026 não se furta de ser um campo de batalha ideológico. Ao colocar a literatura de denúncia de Carolina e a resistência religiosa do Bembé no centro da avenida, as escolas de samba combatem o revisionismo histórico. A presença de picos de busca no Google Trends confirma que o público busca mais do que entretenimento; busca entender as raízes de um Brasil que, mesmo em festa, não esquece suas lutas por igualdade. É a justiça social desfilando em forma de arte, luxo crítico e baticum.

CARNAVAL

Análise & Contexto

A curadoria de enredos para a segunda noite de 2026 reflete um compromisso das escolas de samba com a justiça social e a soberania cultural. Ao unir ícones da MPB, do Candomblé e da Literatura de favela, o Carnaval atua como o maior instrumento de educação política do Brasil, ocupando o imaginário global com narrativas de resistência de esquerda.

Takeaways:

  • Mocidade celebra Rita Lee como ícone de liberdade e contestação de costumes.
  • Beija-Flor denuncia a falta de reparação pós-abolição através do Bembé do Mercado.
  • Viradouro homenageia a trajetória técnica e vital de Mestre Ciça na bateria.
  • Unidos da Tijuca transforma a obra de Carolina Maria de Jesus em denúncia contra a fome.
  • A segunda noite reafirma o Carnaval como ferramenta de afirmação da identidade negra e feminina.

Fatos-chave:

  • Data: 16 de fevereiro de 2026.
  • Ordem de Desfile: Mocidade (22h), Beija-Flor (23h30), Viradouro (01h) e Tijuca (02h30).
  • Temas: Rock/Liberdade, Candomblé/Resistência, Mestre de Bateria/Vida, Literatura/Desigualdade.
  • Destaque: Carolina Maria de Jesus no encerramento como símbolo de luta de classes.

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