Deboche Institucional

PL propõe Carla Zambelli presa à noite e deputada de dia

Líder do partido defende privilégio absurdo para bolsonarista foragida, condenada por ataque ao Judiciário
Por JR Vital JR Vital — Analista Geopolítico
JR Vital
JR Vital Analista Geopolítico
● Fato Verificado

Jornalista do Diário Carioca.

Brasília, 2 de julho de 2025 – O Brasil ultrapassou mais uma fronteira da bizarrice política. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do Partido Liberal na Câmara dos Deputados, afirmou nesta quarta-feira que Carla Zambelli (PL-SP), condenada a 10 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal, poderia exercer suas funções parlamentares durante o dia e cumprir pena à noite.

A proposta foi feita com naturalidade constrangedora. “Já tivemos dois parlamentares que cumpriam pena à noite e atuavam aqui durante o dia. Se for necessário com a Carla, será igual”, disse Sóstenes, sem constrangimento algum, numa entrevista coletiva que soaria como piada, se não refletisse o desprezo institucional de parte do Congresso.

Zambelli, uma das principais aliadas do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenada por crimes cibernéticos graves: ela participou da invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em uma tentativa clara de sabotagem institucional. Desde a decisão do STF, deixou o Brasil e se encontra na Itália, onde vive como foragida da Justiça brasileira, segundo o próprio Supremo Tribunal Federal.


Congresso como abrigo da impunidade?

A ideia de que uma parlamentar condenada possa manter suas prerrogativas enquanto cumpre pena, ainda que parcialmente, escancara a dissonância entre a elite política e o senso de justiça popular. A proposta de Sóstenes Cavalcante não é apenas simbólica — é um aceno claro de solidariedade à impunidade, um convite à desmoralização do sistema penal, e mais um episódio de desrespeito à separação de Poderes.

O caso de Zambelli vai além da esfera criminal: afeta diretamente a credibilidade do Legislativo, que, em tese, deveria zelar pelo cumprimento das decisões judiciais e pelo decoro parlamentar.


Perda de mandato: impasse político

Condenada por fraude eletrônica e associação criminosa, Zambelli teve também a perda automática do mandato determinada pelo STF. Mas o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), recuou diante da pressão da bancada bolsonarista, e agora diz que a decisão caberá ao plenário — o que abre brecha para o corporativismo político blindar mais uma figura da extrema direita.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) analisa o processo de cassação do mandato. A defesa já foi apresentada, mas o calendário da impunidade segue em ritmo lento, e o desfecho está sujeito ao humor político da Casa.


Zambelli na Itália: fuga disfarçada

A deputada bolsonarista viajou para a Itália logo após a condenação, sem data definida para retorno. Apesar de seu advogado afirmar que ela “tem vontade de voltar”, não há nenhum indicativo de que queira se submeter à Justiça brasileira. O ministro Alexandre de Moraes decretou sua prisão preventiva, destacando que a viagem configura tentativa de fuga.

A tentativa do PL de tratá-la como uma vítima política — e não como uma condenada que sabota as instituições — faz parte de uma estratégia para consolidar a narrativa do “Judiciário opressor”. Uma tática perigosa que minimiza crimes reais, distorce o debate público e incentiva a desobediência institucional.


O Carioca Esclarece

Prisão em regime semiaberto pode permitir que o condenado trabalhe durante o dia e retorne à prisão à noite, mas isso depende de autorização judicial, bom comportamento, cumprimento de parte da pena e ausência de risco de fuga — o que não se aplica a quem está foragido.


FAQ – Perguntas Frequentes

1. Carla Zambelli pode continuar deputada mesmo condenada?
Não. O STF determinou a perda automática do mandato. Cabe agora ao Congresso decidir se cumpre ou ignora a decisão.

2. É legal trabalhar no Congresso e dormir na prisão?
Em tese, o regime semiaberto pode permitir isso. Mas Zambelli não cumpre os requisitos — está foragida e não iniciou o cumprimento da pena.

3. Por que a Câmara não cassou o mandato ainda?
A cassação passa pela CCJ e depois pelo plenário. A lentidão e a pressão política explicam a demora, refletindo o corporativismo do Congresso.

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