O dinheiro que nunca saiu do cofre
No sistema financeiro, há uma regra elementar que separa o capitalismo funcional da fraude elegante: ativos só existem quando o dinheiro efetivamente muda de mãos. Em uma acareação conduzida pela Polícia Federal no fim de 2025, essa fronteira foi atravessada com naturalidade perturbadora. O banqueiro Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master, afirmou que “nenhum real” foi pago pela aquisição de uma carteira de créditos da empresa Tirreno, oficialmente avaliada em R$ 6 bilhões.
A confissão não é um detalhe técnico. É a implosão de toda a narrativa que sustentou uma das operações mais controversas do sistema financeiro recente — e um alerta grave sobre como lançamentos contábeis podem substituir dinheiro real quando a fiscalização falha.
O que foi apresentado como negócio era apenas contabilidade
Segundo a transcrição dos depoimentos, obtida pelo jornalismo investigativo, Vorcaro declarou que o valor da operação permaneceu registrado em uma conta reserva, sem qualquer saída de caixa. Não houve TED, não houve liquidação financeira, não houve pagamento. Houve apenas um registro contábil interno, tratado como se fosse uma transação real.
Questionado reiteradamente pela delegada responsável, o banqueiro abandonou a ambiguidade e admitiu: o pagamento nunca ocorreu.
Esse ponto é crucial porque desmonta o argumento central de que o Banco Master teria adquirido legitimamente os créditos antes de revendê-los ao Banco de Brasília (BRB).
Liquidez em colapso antes mesmo da operação
No mesmo depoimento, Vorcaro reconheceu que o Banco Master já enfrentava uma crise severa de liquidez até 17 de novembro, período em que, segundo ele, os resgates foram honrados apenas com “dificuldade e planejamento”.
Traduzindo do idioma bancário para o português claro: o banco já estava no limite antes de participar de uma operação bilionária. Ainda assim, seguiu operando como se tivesse lastro.
A situação, segundo o próprio banqueiro, só se agravou após a liquidação da instituição pelo Banco Central, o que indica que a fragilidade não foi criada pela intervenção — ela foi apenas revelada por ela.
BRB sabia que o dinheiro não existia
Durante a acareação, um segundo depoimento adicionou uma camada ainda mais inquietante ao caso. O ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Bezerra, foi questionado sobre por que o BRB não exerceu o direito de sacar valores devidos pela Tirreno, mesmo após os problemas identificados.
A resposta foi direta: ele sabia que o dinheiro “não existia fisicamente” e que uma retirada provocaria uma quebra em cadeia da Tirreno e do Banco Master.
Não se trata de ignorância. Trata-se de decisão consciente.
Quando um banco público escolhe sustentar o risco privado
Ao manter a operação ativa para evitar o colapso do parceiro privado, o BRB assumiu um papel que extrapola qualquer manual de prudência bancária. A instituição pública optou por preservar a aparência de solvência do sistema, mesmo ciente da inexistência de liquidez imediata das garantias.
Para a Polícia Federal, essa conduta revela falhas graves de governança, ausência de diligência adequada e desprezo pelo risco sistêmico — especialmente sensível quando envolve recursos de um banco controlado pelo Estado.
A engenharia da operação: como o prejuízo foi empurrado
Segundo a investigação:
- O Banco Master não possuía recursos para honrar títulos com vencimento em 2025.
- Adquiriu créditos da Tirreno sem efetuar pagamento real.
- Esses mesmos créditos foram revendidos ao BRB, que desembolsou cerca de R$ 12 bilhões.
- O Banco Central identificou rapidamente a irregularidade.
- O BRB, no entanto, levou aproximadamente três meses para interromper as compras após o início da fiscalização.
O resultado é um manual não oficial de como transformar iliquidez privada em risco público.
| DIMENSÃO ANALÍTICA | DISCURSO INSTITUCIONAL | REALIDADE TÉCNICA |
|---|---|---|
| Aquisição da Carteira | Operação regular | Sem pagamento efetivo |
| Liquidez | Situação controlada | Crise admitida |
| Atuação do BRB | Gestão prudente | Risco assumido conscientemente |
O precedente que ameaça o sistema
O caso Vorcaro não é apenas sobre um banqueiro ou uma operação específica. Ele estabelece um precedente perigosíssimo: o de que lançamentos contábeis podem substituir dinheiro real, desde que haja complacência institucional suficiente.
Quando um banco público aceita ativos sabendo que eles não possuem liquidez imediata, ele deixa de ser gestor de risco e passa a ser amortecedor de colapsos privados. Isso distorce o mercado, premia a imprudência e socializa prejuízos futuros.
Não é um desvio pontual. É um modelo de comportamento.
Vorcaro pagou pela carteira de R$ 6 bilhões?
Não. Segundo o próprio depoimento, não houve qualquer desembolso real; apenas um lançamento contábil.
O BRB sabia da falta de liquidez?
Sim. O ex-presidente do banco admitiu que o dinheiro não existia fisicamente.
Houve falha de fiscalização?
O Banco Central identificou rapidamente a irregularidade. A demora ocorreu na resposta do BRB.
Qual o risco para o sistema financeiro?
Normalizar operações sem lastro real amplia o risco sistêmico e transfere prejuízos privados para o setor público.

