O sistema financeiro brasileiro amanheceu sob o impacto de uma das maiores devassas da história recente. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) escancaram o que chamam de “gestão fraudulenta” no Banco Master, sob o comando de Daniel Vorcaro. Segundo o PGR Paulo Gonet, o banco montou uma sofisticada engrenagem para desviar R$ 5,7 bilhões. O esquema era quase poético em sua audácia: o Master captava dinheiro emitindo CDBs (Certificados de Depósito Bancário), mas, em vez de emprestar para o mercado produtivo, injetava os recursos em fundos de investimento exclusivos. Desses fundos, o dinheiro saltava para notas comerciais de empresas ligadas ao próprio Vorcaro, seus familiares e ao empresário Nelson Tanure. Entre as “pérolas” da investigação, consta o investimento de R$ 361 milhões em uma microclínica de capital social zerado, presidida por uma beneficiária de Auxílio Emergencial — o clássico “laranja” que, no papel, movimenta fortunas enquanto a realidade bate à porta com a pobreza.
O ministro Dias Toffoli, do STF, não apenas retirou o sigilo da decisão, como autorizou o bloqueio total dos R$ 5,7 bilhões e a quebra de sigilo bancário e fiscal de 101 pessoas e empresas. A remessa do caso para o Supremo é um movimento tático de Gonet para evitar que as nulidades jurídicas — tão comuns em casos que envolvem o andar de cima — anulem as provas colhidas. O período investigado abrange os últimos cinco anos, o que promete um raio-X completo da ascensão meteórica da instituição.
Até onde vai a rede de proteção de um banco que infiltra seus tentáculos no mercado de capitais para financiar a vida nababesca de seus controladores?
A pergunta que ecoa na Faria Lima e no Congresso é: o que os peritos da PF encontrarão nos celulares apreendidos? O pânico em Brasília tem nome e tecnologia: a perícia federal agora utiliza Gaiolas de Faraday para extrair dados de aparelhos desligados e sem senha, impedindo que os investigados apaguem as provas remotamente. Com Vorcaro e Tanure no centro do furacão, o conteúdo das mensagens promete ser um inventário das relações perigosas entre o capital financeiro e o poder político. Se o Master se vendia como o banco da “agilidade”, a Polícia Federal provou que a justiça pode ser ainda mais rápida quando a tecnologia encontra o rastro do dinheiro.
A Anatomia da Fraude: O Ciclo do Dinheiro no Master
| Etapa do Fluxo | Mecanismo Utilizado | Destino Final | O Olhar do Diário |
| Captação | Emissão de CDBs para o público. | Caixa do Banco Master. | O dinheiro do investidor vira combustível de esquema. |
| Triangulação | Aporte em Fundos Exclusivos. | Cotista único: o próprio banco. | A lavagem começa na opacidade dos fundos fechados. |
| Desvio | Compra de Notas Comerciais. | Empresas de fachada ou de familiares. | R$ 361 mi em clínica fantasma é o auge do deboche. |
| Blindagem | Uso de “Laranjas” e familiares. | Daniel e Henrique Vorcaro, Nelson Tanure. | O sobrenome na conta e o CPF do pobre na frente. |
A análise técnica do Diário Carioca é implacável: o caso Master é o retrato do “capitalismo de compadrio” levado às últimas consequências. Não se trata apenas de erro de gestão, mas de uma organização criminosa que utilizou a licença bancária para saquear o mercado de capitais em benefício próprio. A tecnologia da Gaiola de Faraday, que isola os celulares das ondas eletromagnéticas, é a metáfora perfeita para o que deve acontecer agora: o isolamento desses atores do convívio social para que as provas não sejam corrompidas. O Master queria ser grande; a PF garantiu que, pelo menos nas páginas policiais, ele seja inesquecível.





