O Rio de Janeiro, berço histórico das grandes decisões nacionais, foi palco nesta sexta-feira (16) de um momento de rara honestidade política. Ao lançar a medalha de 90 anos do salário mínimo na Casa da Moeda, no bairro de Santa Cruz, Luiz Inácio Lula da Silva não vestiu o figurino do gestor satisfeito.
Pelo contrário: com a sagacidade de quem conhece o custo da cesta básica na feira, o presidente classificou o valor atual de R$ 1.621 como insuficiente, tratando-o quase como uma afronta à sobrevivência.
Lula não apenas admitiu que o piso é baixo; ele fez uma “apologia à briga”, convocando trabalhadores e sindicatos a pressionarem o próprio Estado e o patronato por fatias maiores da riqueza.
Para o presidente, o PIB não é um número abstrato para deleite de economistas da Faria Lima, mas o suor acumulado de quem acorda cedo no subúrbio carioca e merece ver esse crescimento refletido no prato.
A cerimônia na capital fluminense serviu de palco para uma defesa apaixonada da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Lula, que se vê cada vez mais como o herdeiro contemporâneo de Getúlio Vargas — cujo corpo descansa não muito longe dali, no Catete —, disparou contra o mantra da “flexibilização”.
Para ele, rotular a CLT como atraso é o primeiro passo para o retorno à semiescravidão travestida de empreendedorismo de aplicativo. Ao celebrar a ideia de Vargas em 1936, o petista deixou claro que o salário mínimo não é uma concessão benevolente das elites, mas um pilar da democracia que impede o país de mergulhar em um abismo social ainda mais profundo.
Pode a economia brasileira suportar um salário mínimo digno ou a “responsabilidade fiscal” continuará sendo o carrasco do consumo popular?
Será que os setores que pregam o arrocho salarial entendem que o PIB só cresce quando o povo tem dinheiro para girar o comércio? A fala de Lula, proferida no coração industrial do Rio, é um petardo no consenso neoliberal.
Ao compartilhar o palco com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, Lula sinaliza que a política monetária precisa ter alma — ou, ao menos, considerar que a inflação do feijão dói mais do que a oscilação do dólar para quem vive do piso nacional.
O presidente sabe que a história não perdoa líderes que deixam o povo com fome enquanto os balanços financeiros brilham. Se Getúlio deu a letra no Rio de Janeiro há quase um século, Lula tenta, em 2026, evitar que a música pare por falta de oxigênio financeiro na base da pirâmide.
A Anatomia do Piso: Realidade vs. Necessidade em 2026
| Indicador Econômico | Valor / Impacto | A Visão de Lula | O Veredito do Diário |
| Salário Mínimo 2026 | R$ 1.621 | “Muito pouco” e insuficiente. | Uma base que mal cobre a inflação dos alimentos. |
| Local do Evento | Rio de Janeiro | Casa da Moeda do Brasil. | O simbolismo do Rio como centro da luta trabalhista. |
| Papel da CLT | Garantia de direitos básicos. | “Fundamental e atual”. | O escudo contra a “uberização” da sobrevivência. |
| Aposentados / Sindicatos | Dependência total do piso. | Precisam se mobilizar e brigar. | Sem pressão popular, o reajuste vira fumaça. |
Lula está jogando em casa ao usar o Rio para resgatar o trabalhismo. Ao pedir que o povo “brigue” por aumentos maiores, ele joga a responsabilidade do reajuste real para a correlação de forças nas ruas.
Não é apenas uma celebração de 90 anos; é um aviso de que, sem pressão popular, a “mão invisível do mercado” continuará pesando no pescoço do trabalhador.
O Brasil de 2026 ainda discute o elementar, provando que a herança de Vargas no Rio de Janeiro ainda é uma obra inacabada — e que o “Lulinha paz e amor” deu lugar ao Lula que sabe que, sem conflito distributivo, não há justiça social.





